A Viking Holdings virou queridinha dos relatórios SWOT e o mercado celebra como se tivesse descoberto fogo. Cruzeiros de luxo lotados, margens gordas, demanda resiliente, recomendação de compra. Tudo lindo, tudo verdadeiro, e tudo profundamente revelador de algo que ninguém em Wall Street quer dizer em voz alta. O setor que mais cresce no pós-pandemia é o que vende experiências de meio milhão de reais para uma elite que multiplicou patrimônio enquanto o resto do mundo descobria que o salário não compra mais o mesmo carrinho de supermercado de cinco anos atrás.
Olha, ninguém aqui é contra cruzeiro de luxo. Que cada um gaste o próprio dinheiro como bem entender é precisamente o ponto de partida de qualquer civilização decente. O problema não é a Viking vender suítes com mordomo. O problema é entender por que existe tanta gente disposta a pagar trinta mil dólares por uma cabine enquanto o operário americano médio precisa de dois empregos para pagar o aluguel de um apartamento de dois quartos em Phoenix. A resposta não está no balanço da empresa. Está na planilha do banco central que, há quinze anos, transfere riqueza do trabalhador assalariado para o detentor de ativos com a regularidade de um relógio suíço.
Quando o governo imprime, o dinheiro novo não chega igual para todos. Chega primeiro para quem está perto da torneira, bancos, fundos, grandes empresas listadas, holdings de turismo de luxo. Quando esse dinheiro finalmente goteja até o assalariado, já chegou empoeirado, desvalorizado, comendo metade do poder de compra pelo caminho. O sujeito que comprou ação de cruzeiro em 2020 multiplicou por quatro. O sujeito que guardou poupança no mesmo período viu o cafezinho da padaria dobrar de preço. Isto não é capitalismo funcionando, é redistribuição de baixo para cima disfarçada de política monetária técnica.
E aí entra a parte divertida do relatório SWOT. As ameaças listadas são as de sempre, recessão global, preço do combustível, regulação ambiental. Faltou a verdadeira ameaça, que é o dia em que a classe média descobrir que o boom dos ativos de luxo não é prova da saúde da economia, é o atestado de óbito dela. Cruzeiros premium lotados em meio a recordes de inadimplência em cartão de crédito é o tipo de paradoxo que historicamente antecede colapsos sociais. Versalhes também tinha festas magníficas até o dia em que não teve mais.
A Viking provavelmente vai entregar os números prometidos. A empresa é bem gerida, opera num nicho real, atende uma clientela que existe e paga em dia. Recomendação de compra faz sentido dentro da lógica restrita do mercado financeiro. Só que existe uma diferença entre identificar uma ação vencedora e celebrar o quadro macroeconômico que a torna vencedora. Quando os melhores investimentos são aqueles que vendem fuga da realidade para quem pode pagar, alguma coisa muito feia está acontecendo com a realidade da qual se está fugindo.
Os analistas seguirão batendo palma para os próximos trimestres, e farão bem, é o trabalho deles. Ao leitor cabe a pergunta mais incômoda, aquela que nenhum SWOT responde. Em uma economia saudável, quem prospera é quem produz, quem inova, quem resolve problema dos outros. Em uma economia capturada, quem prospera é quem está mais perto da impressora. Decida você em qual das duas estamos vivendo, e a conta fecha sozinha.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.