A Visteon, aquela velha conhecida que nasceu do ventre da Ford em 2000 para ser fornecedora de cockpits eletrônicos e displays automotivos, agora aparece nas manchetes como candidata a uma recuperação, palavra que no jargão financeiro virou eufemismo para algo entre o sopro de vida e a extrema-unção. A análise SWOT publicada esta semana enfileira forças, fraquezas, oportunidades e ameaças com a solenidade de um cardiologista lendo o eletrocardiograma de um paciente que insiste em fumar charuto na UTI. O que ninguém na peça quer dizer em voz alta é uma coisa simples: a empresa não está doente porque foi mal gerida apenas, está doente porque o ecossistema inteiro em que ela respira foi reengenheirado por planejadores que nunca produziram um parafuso na vida.
Olha, é preciso entender o tamanho da metamorfose. A Visteon viveu décadas vendendo componentes para motores de combustão, painéis convencionais, eletrônica embarcada de complexidade média. De repente, por decreto verde editado em Bruxelas, em Washington, em Brasília e replicado em Pequim com sotaque mandarim, toda a indústria automotiva ocidental recebeu a ordem de migrar para elétricos num prazo que nenhum engenheiro sério jamais consideraria viável. Subsídio aqui, multa ali, meta de emissão acolá, tarifa contra carro chinês mais adiante. Quer dizer, criou-se artificialmente uma corrida tecnológica que o consumidor não pediu, financiada com dinheiro que o contribuinte não autorizou, para resolver um problema cuja urgência ninguém comprovou. E a conta dessa engenharia social chega na forma de balanços trimestrais como o da Visteon.
Me diz uma coisa, quem está ganhando nesse rearranjo? Porque alguém sempre ganha. Os fabricantes chineses, que receberam subsídios estatais por uma década enquanto o Ocidente ainda discutia se carro elétrico era moda passageira, agora exportam baterias e veículos completos a preços que nenhuma fornecedora americana ou europeia consegue cobrir. Os fundos de tecnologia que apostaram cedo em software automotivo embolsaram fortunas vendendo soluções para empresas tradicionais desesperadas por relevância digital. Os consultores que escrevem essas análises SWOT cobram caro para informar o óbvio. E os trabalhadores do chão de fábrica de Detroit, de Plymouth, de Michigan inteira, esses descobrem que a transição verde tinha um detalhe nas letras miúdas: o emprego deles não estava incluído no plano.
O mais hilário da peça é o vocabulário gerencial que floresce nessas horas. Reestruturação, otimização de portfólio, sinergia de pegada operacional, foco em mobilidade do futuro. Tradução honesta: a empresa vai demitir gente, fechar fábrica, vender divisão, contratar consultor caro para escrever relatório dizendo que tudo isso é estratégia visionária. E enquanto isso, o sujeito que assina o cheque do executivo continua recebendo bônus por entregar resultado num jogo de cartas marcadas. Existe algo de profundamente cômico em ver mercados de capitais aplaudirem demissões em massa como se fossem inovação, quando na verdade são apenas a confissão tardia de que o modelo de negócio foi atropelado por forças que vinham se anunciando há anos.
O ponto que escapa aos analistas é que nenhuma empresa, por mais centenária e bem capitalizada que seja, sobrevive indefinidamente num ambiente onde as regras do jogo mudam por canetada política a cada eleição. Você não consegue planejar investimento de bilhões em pesquisa sabendo que a próxima administração pode revogar subsídios, impor novas tarifas, mudar critérios de homologação ou simplesmente decidir que a tecnologia que você desenvolveu virou ilegal. Esse é o ambiente que matou o setor de aço europeu, esvaziou a indústria têxtil americana, está sufocando a química alemã e agora corrói as fornecedoras automotivas. Quando o capital descobre que não pode confiar nas regras, ele simplesmente para de aparecer.
O que vem por aí para a Visteon é o roteiro previsível: cortes profundos, talvez uma fusão com algum competidor igualmente combalido, venda de ativos para algum fundo asiático que comprará a tecnologia por uma fração do que custou desenvolver, e em alguns anos os jornais publicarão retrospectivas nostálgicas sobre como aquela empresa um dia foi símbolo da pujança industrial americana. Ninguém escreverá que o problema não foi falta de visão dos executivos nem ganância dos acionistas. O problema foi acreditar que dava para fazer negócio sério num cenário onde o burocrata em Bruxelas pesa mais que o engenheiro em Michigan. A análise SWOT é o último ritual antes do enterro, e a coroa de flores virá patrocinada por algum programa governamental de transição justa, com dinheiro do contribuinte, evidentemente.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.