A cena é quase cômica. Uma análise técnica sobre a Volaris aparece nas telas dos investidores cantando o otimismo das viagens aéreas enquanto, no parágrafo seguinte, admite a pequena inconveniência de o PIB mexicano não estar lá essas coisas. Quer dizer, o avião está cheio, mas o bolso de quem embarca está vazio. Como pode? A resposta é simples e ninguém quer dizer em voz alta: o que parece demanda saudável é, em larga medida, sintoma de uma economia inflada por crédito artificial e gastança pública, onde a passagem de hoje é paga com a renda real de amanhã.
Olha, toda vez que um banco central abre a torneira monetária e um governo abre o cofre fiscal, os primeiros a sentirem a brisa são os setores ligados a consumo discricionário. Viagens, entretenimento, varejo de luxo. O dinheiro novo entra na economia por um portão específico e quem está perto do portão dança. O passageiro frequente da Volaris é o beneficiário inicial de uma festa que ele não percebe estar pagando. Quando o efeito se dissipa, o PIB encolhe, o consumo despenca, e o analista que ontem recomendava compra hoje descobre que o céu de brigadeiro era fumaça de impressora.
Me diz uma coisa, por que ninguém pergunta de onde vem o combustível dessa euforia aérea? O México segue o roteiro clássico latino-americano: déficit que não fecha, dívida que cresce, moeda que se desgasta na sombra das estatísticas oficiais. A companhia opera com custos dolarizados num país de receita em peso, e qualquer tremor cambial transforma margem em prejuízo da noite para o dia. Quem comemora o turismo doméstico esquece que turismo doméstico financiado por endividamento das famílias não é prosperidade, é antecipação de miséria.
Siga a trilha do dinheiro e a fotografia fica nítida. Subsídios cruzados em aeroportos, isenções fiscais para companhias amigas do regime, regulação que protege incumbentes e expulsa concorrentes, e por baixo de tudo o eterno banquete entre lobistas de aviação e burocratas de aviação civil. O passageiro paga três vezes: na passagem, no imposto que sustenta o sistema, e na inflação que corrói o que sobrou depois das duas primeiras mordidas. E ainda agradece pela promoção de quarta-feira.
A análise SWOT, esse fetiche corporativo que finge transformar incerteza radical em planilha colorida, captura forças e fraquezas como se a economia fosse um xadrez de peças paradas. Não é. É ação humana, é decisão de milhões de pessoas reagindo a sinais distorcidos por uma máquina estatal que mente sobre juros, mente sobre inflação e mente sobre crescimento. Comprar Volaris hoje porque o turismo está aquecido é como comprar guarda-chuva no meio do verão porque viu uma nuvem solitária. A tempestade vem de onde ninguém olha.
O destino dessa ação, como o de tantas outras presas ao humor macroeconômico de governos perdulários, será decidido não pela competência da gestão, não pela frota, não pela rota, mas pela velocidade com que a realidade alcança a ficção contábil dos planejadores. Quando alcançar, e sempre alcança, o passageiro descobrirá que estava voando em primeira classe num avião sem combustível. Mercado livre não precisa de SWOT, precisa de honestidade monetária. Tudo o mais é turbulência fabricada.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.