O Federal Reserve removeu, depois de quase sete anos, o teto de ativos imposto à Wells Fargo, aquele limite simbólico de 1,95 trilhão de dólares que servia menos como punição e mais como teatro regulatório. A ação subiu, os analistas correram para refazer suas planilhas de SWOT, e o consenso de Wall Street voltou a sorrir para o banco que, recorde-se, fabricou milhões de contas falsas no nome de clientes que jamais autorizaram nada. A lição implícita do episódio é que, no capitalismo de compadrio americano, fraude sistêmica rende, no máximo, uma temporada de cara amarrada no regulador antes que tudo volte ao normal.

O detalhe que ninguém na CNBC quer sublinhar é a natureza do tal limite. Não foi multa, não foi prisão, não foi nem ao menos quebra do contrato implícito de confiança com o depositante. Foi um teto de crescimento, ou seja, o banco continuou operando, continuou cobrando taxas, continuou pagando bônus milionários para a mesma classe executiva que presidiu o esquema. A punição, traduzida em linguagem honesta, foi a seguinte: você fica do tamanho que está enquanto a gente finge que está fazendo alguma coisa. E agora, removido o teto, a celebração é a prova cabal de que o castigo nunca doeu de verdade.

Vale puxar o fio do dinheiro. Quem ganha com a remoção do limite? Acionistas, executivos, e os fundos institucionais que vinham comprando barato apostando exatamente nesse desfecho regulatório. Quem perdeu durante os anos da coleira? Os correntistas fraudados, que receberam acordos coletivos pulverizados em ressarcimentos simbólicos, e os concorrentes menores que jamais teriam sobrevivido caso cometessem um décimo do que o Wells Fargo cometeu. A assimetria é o ponto. Banco grande demais para quebrar é também banco grande demais para ser punido, e qualquer estudante atento de economia financeira sabe disso antes de terminar o segundo ano.

Existe ainda a questão mais profunda, que é a do próprio papel do Federal Reserve nessa novela. O mesmo órgão que imprime moeda sem lastro, que distorce a taxa de juros para salvar bancos e estados endividados, que cria o ambiente de crédito frouxo no qual fraudes desse tipo florescem, é também o juiz que decide quando o réu cumpriu pena. É como entregar a chave da cadeia ao sócio do preso. A regulação bancária americana virou, há muito tempo, um jogo entre amigos no qual o povo paga a entrada e nunca vê o espetáculo.

O analista bancário tradicional vai dizer que a remoção do limite é positiva, que destrava capacidade de empréstimo, que melhora múltiplos, que reposiciona o ativo no setor. Tudo verdade do ponto de vista contábil. Mas há uma verdade maior por trás dessa verdade pequena, e é a seguinte: cada vez que uma instituição financeira gigante é resgatada do próprio crime, o sistema todo aprende que o crime compensa, desde que seja grande o suficiente. O incentivo perverso fica embutido na cultura, e a próxima fraude já está sendo gestada agora, em alguma sala de reunião em Charlotte ou São Francisco, com gráfico de PowerPoint e meta trimestral.

O recado para o investidor pequeno, aquele que ainda acredita que o mercado é meritocrático, é mais cruel do que parece. O jogo não é entre empresas competindo por eficiência, é entre lobbies competindo por afrouxamento regulatório. Quem entende isso lucra. Quem não entende continua acreditando em SWOT analysis e em relatório de banco de investimento como se fossem oráculos. A Wells Fargo voltou a correr solta, e o resto do mundo financeiro voltou ao roteiro de sempre: privatizar lucro, socializar prejuízo, e chamar isso de livre mercado.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.