A First Watch Restaurant Group, rede americana especializada naquilo que qualquer dona de casa faz toda manhã, virou objeto de análise SWOT séria em casas de research e ganhou destaque no setor. Olha, há algo profundamente revelador no fato de que servir ovos mexidos, panquecas e suco de laranja se transformou numa tese de investimento defensável, com múltiplos, projeções de fluxo de caixa descontado e teleconferência trimestral. Não é o restaurante que é extraordinário. Extraordinário é o ambiente onde ele consegue existir, crescer, abrir capital e remunerar acionista sem que um fiscal apareça na porta exigindo certidão de regularidade do garfo.
O modelo é trivial na descrição e brutal na execução, café da manhã e brunch, fechado à tarde, sem jantar, sem delivery agressivo, sem reinventar a roda. Justamente porque é trivial é que funciona, porque o capital alocado nessa simplicidade está livre para girar rápido, calcular margem real e responder ao consumidor em tempo presente. Quem nunca tentou abrir uma lanchonete no Brasil não tem dimensão do abismo. Aqui, antes de fritar o primeiro ovo, o sujeito precisa atravessar um pântano de alvarás municipais, vigilância sanitária, bombeiros, ISS, ICMS na entrada do insumo, Simples que de simples não tem nada, e ainda reza para que o contador não erre uma guia e transforme o sonho em execução fiscal.
Repare no detalhe que ninguém comenta. O relatório de análise menciona pontos fortes como expansão de unidades próprias, controle de qualidade e fidelização. Pontos fracos giram em torno de exposição a custos de insumos e mão de obra. Em nenhum momento aparece nas linhas de risco a possibilidade de o governo americano decretar amanhã que o ovo é cancerígeno, que a panqueca causa obesidade infantil estrutural ou que o café precisa vir com selo de procedência amazônica para ser comercializado no Arizona. Aqui, esse tipo de risco regulatório é a regra, não a exceção, e por isso o investidor brasileiro paga prêmio de medo em qualquer ativo nacional, prêmio que ninguém devolve quando a tempestade passa.
Siga o dinheiro e a história fica mais interessante. A ação ganha destaque porque a empresa entrega o que prometeu, abre lojas no ritmo planejado, mantém ticket médio sob controle e converte receita em caixa. Não há subsídio, não há BNDES financiando expansão a juros camaradas, não há fundo soberano comprando participação para salvar empresa estratégica. É capital privado decidindo livremente onde alocar poupança em troca de retorno futuro. Esse mecanismo, que parece banalidade, é a coisa mais sofisticada que a humanidade já inventou para coordenar bilhões de decisões sem que ninguém precise mandar em ninguém. Cada vez que um país substitui esse mecanismo por planejamento central, comitê interministerial ou conselho deliberativo de notáveis, o resultado é o mesmo, fila, desabastecimento e desculpa.
O contraste com o setor de alimentação fora do lar brasileiro é cruel. Aqui, o empreendedor que sobrevive não é o mais eficiente, é o mais resistente à burocracia, o que aprendeu a navegar entre fiscais, a financiar capital de giro a três por cento ao mês e a repassar para o cliente uma carga tributária que come quase metade do faturamento antes mesmo de pagar o primeiro funcionário. A pergunta que ninguém faz no jornal econômico domesticado é simples, quantas First Watch brasileiras morreram no útero porque alguém em Brasília decidiu que pequeno negócio precisa de proteção, de enquadramento, de tutela, de programa específico com nome bonito e CNPJ obrigatório?
O que se vê é a ação subindo lá fora. O que não se vê é o oceano de empreendimentos abortados aqui, é o capital que fugiu para Miami, é o jovem que desistiu de abrir o próprio negócio e foi prestar concurso, é a inovação que não aconteceu porque o risco regulatório supera o risco de mercado. Toda vez que alguém celebrar no Brasil mais uma medida provisória que cria mais um regime especial para mais um setor estratégico, lembre da First Watch. Ovo, panqueca, café, lucro, dividendo. Liberdade econômica não é teoria de livro, é o cardápio que você consegue oferecer quando o Estado tira o joelho do seu pescoço.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.