Olha, é curioso o ritual. Toda vez que aparece uma análise SWOT de um gigante como o Bank of America, o leitor desavisado imagina que vai ler sobre produtos inovadores, eficiência operacional, conquista de mercado. Engano. O que se lê, na verdade, é uma extensa peça de adivinhação sobre o que um punhado de senhores de gravata vai decidir na próxima reunião do Federal Reserve. A "força" do banco virou sinônimo de surfar bem a tabela de juros. A "fraqueza", de ser surpreendido por ela. Quer dizer, o segundo maior banco dos Estados Unidos não compete mais por clientes, compete por antecipar o humor do regulador. Isso não é capitalismo, é cortesania financeira.

Repare na contradição que ninguém destaca. Diz-se que o Bank of America enfrenta "pressão dos juros" enquanto mostra "crescimento". Tradução honesta: o banco lucra quando o dinheiro fica artificialmente caro, sofre quando fica artificialmente barato, e em nenhum dos dois cenários o preço do dinheiro reflete a poupança real das pessoas. É tudo decreto. O spread bancário americano, que sustenta dividendos polpudos para acionistas e bônus obscenos para executivos, não nasce da habilidade de alocar capital, nasce da posição privilegiada de ser balcão autorizado a manipular o ativo mais importante da economia, que é o próprio dinheiro.

E aqui vale seguir a trilha do dinheiro com calma. Quem paga essa festa? O sujeito da classe média que vê sua poupança render menos que a inflação enquanto o banco capta a juro real negativo e empresta a juro real positivo. O pequeno empresário que toma capital de giro a taxas que tornariam um agiota medieval corado de vergonha. O aposentado cujo CDB rende migalhas porque o sistema inteiro foi desenhado para socializar o risco e privatizar o ganho. Quando uma análise diz que o banco "se beneficia do ciclo", está dizendo, sem dizer, que ele se beneficia da pilhagem organizada. A diferença entre o assalto na esquina e o spread bancário é apenas o terno.

Há ainda o detalhe geopolítico que os relatórios de mesa não tocam. O Bank of America é peça central de um sistema monetário que funciona enquanto o dólar reinar como moeda de reserva global. No dia em que essa hegemonia trincar, e ela já está trincando com BRICS comprando ouro como se não houvesse amanhã, todo esse castelo de cartas balança. Por isso a obsessão dos analistas com "exposição a renda fixa", "duration", "marcação a mercado". É o eufemismo corporativo para dizer que o banco está sentado em uma montanha de títulos públicos cujo valor depende inteiramente da confiança no governo emissor. Confiança, vale lembrar, é a primeira coisa que evapora quando o vento muda.

A piada final é a tal "diversificação de receitas" celebrada nos relatórios. Banco de investimento, gestão de patrimônio, cartões, hipotecas. Parece robusto até você perceber que todas essas pernas se apoiam no mesmo chão, que é o crédito barato fabricado pelo Fed. Tire o chão, caem todas juntas. Em 2008 vimos o filme. Os mesmos analistas que hoje fazem SWOT otimista faziam SWOT otimista em 2007. A memória do mercado é curta porque o incentivo é vender hoje, não acertar amanhã. E quando der errado de novo, e vai dar, virão os pacotes de socorro, as injeções de liquidez, os too big to fail. O contribuinte paga, o acionista é resgatado, o executivo recebe bônus pela "gestão de crise". Belo negócio.

Me diz uma coisa: que ciência econômica é essa que precisa de um comitê central decidindo o preço do insumo mais importante para que seus principais agentes sobrevivam? Nenhuma. É engenharia social travestida de finanças. Enquanto o público discute se a ação do Bank of America vai subir ou cair no próximo trimestre, a pergunta de verdade segue intocada, que é por que aceitamos viver numa economia onde o sucesso dos maiores bancos depende menos de servir o cliente e mais de adivinhar o burocrata. A resposta incomoda porque obriga a admitir que o sistema não está quebrado, está funcionando exatamente como foi desenhado, e quem desenhou não foi o mercado.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.