A notícia chega embrulhada em sigla técnica, análise SWOT, métricas de sinergia e aquela linguagem asséptica que os analistas de banco adoram porque esconde no jargão o que qualquer pedreiro entenderia em três frases. O Fifth Third Bancorp está digerindo uma aquisição, e o mercado quer saber se a ação sobe ou desce. A pergunta certa, porém, é outra, e ninguém em Wall Street tem coragem de fazer. Por que diabos um banco precisa engolir outro para crescer, em vez de simplesmente atender melhor o cliente?

A resposta está escrita em letras gigantes na história financeira dos últimos quarenta anos, e ninguém quer ler. O sistema bancário americano foi sistematicamente concentrado por um arranjo silencioso entre o banco central, o tesouro e os próprios bancos. Cada onda de fusões foi precedida por uma expansão de crédito artificial, seguida de uma crise, resolvida com socorro estatal generoso, e coroada com a consolidação dos sobreviventes. O peixe grande não come o pequeno por mérito; come porque o regulador segura o pequeno pelo pescoço enquanto o grande abocanha.

Olha, integração de aquisição é o eufemismo predileto da classe financeira para descrever o processo no qual milhares de funcionários redundantes vão para a rua, agências são fechadas em cidades médias, e o cliente que tinha um gerente conhecido passa a falar com um robô em Manila. Tudo isso é celebrado como ganho de eficiência. Eficiência para quem, exatamente? Os acionistas comemoram a sinergia, os executivos embolsam bônus de fusão, e a comunidade descobre que perdeu o último banco que conhecia o nome do padeiro. O que se vê é o lucro reportado no balanço trimestral. O que não se vê é a economia local desidratada, a concorrência morta no berço, e o risco sistêmico crescente que um dia vai aparecer na conta de todo mundo.

Me diz uma coisa, se o mercado bancário fosse mesmo livre, por que essas operações dependem tanto da bênção de reguladores em Washington? A resposta é constrangedora. Porque não existe mercado bancário livre. Existe um cartel licenciado pelo Estado, no qual a entrada é proibida para quem não tem padrinho, a falência é proibida para quem tem tamanho, e o lucro é privatizado enquanto o prejuízo é socializado pela porta dos fundos do Federal Reserve. Cada gigante que nasce dessas fusões carrega no DNA a certeza de que, se um dia quebrar, o contribuinte americano cobre a conta. E é essa garantia implícita, e não a competência gerencial, que faz a ação subir quando a aquisição é anunciada.

O analista convencional vai te dizer que o Fifth Third está bem posicionado, que os múltiplos estão atrativos, que o ROE projetado supera a média do setor. Tudo isso pode ser verdade dentro do videogame onde esse pessoal trabalha. Fora dele, no mundo onde as pessoas ainda guardam dinheiro suado em conta corrente, o que está acontecendo é a continuação de um processo de cinquenta anos no qual o sistema financeiro americano se tornou simultaneamente mais lucrativo, mais concentrado, mais arriscado e mais dependente do guarda-chuva estatal. Investir nessas ações pode ser racional do ponto de vista individual; é o equivalente financeiro a apostar na casa de jogo, que sempre ganha porque escreveu as regras do jogo.

Quando a próxima crise chegar, e ela chegará, porque o ciclo de crédito artificial é tão inevitável quanto a maré, o Fifth Third estará grande demais para falir. O socorro virá, embrulhado novamente em linguagem técnica, justificado pela necessidade de proteger o sistema, e pago por quem nunca recebeu um centavo de bônus de Wall Street. A análise SWOT verdadeira dessa ação é simples. Força, garantia estatal implícita. Fraqueza, dependência crônica do banco central. Oportunidade, devorar mais concorrentes na próxima crise. Ameaça, o dia improvável em que alguém em Washington descubra que o capitalismo de verdade exige deixar os bancos quebrarem.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.