O Spotify acaba de receber, de mais um relatório de analista de banco, a notícia que qualquer empresário de bar de esquina sabe sem precisar de planilha: dá para subir o preço, mas não dá para subir para sempre. A plataforma sueca, que durante uma década e meia foi tratada como sinônimo de inevitabilidade tecnológica, agora aparece em análise corporativa como uma empresa que precisa equilibrar dois pratos trêmulos, o poder de precificação que finalmente descobriu ter e a ameaça difusa de que a inteligência artificial gere música tão barata e tão personalizada que o catálogo licenciado vire peça de museu. Quer dizer, o predador percebeu que existe um predador maior circulando o território, e o cheiro do próprio sangue começa a incomodar.

Olha, vale entender como esse animal cresceu. O Spotify não venceu o mercado oferecendo algo que ninguém tinha; venceu oferecendo algo que parecia gratuito enquanto destruía o modelo de venda de música gravada que sustentava artistas, selos, lojas físicas, capistas, técnicos de masterização, produtores independentes e toda uma cadeia de pessoas reais com aluguel para pagar. A engenharia financeira foi brilhante: queimar capital de investidor por anos, subsidiar o consumidor com preço abaixo do custo real do serviço, esperar a concorrência morrer de exaustão e, só então, descobrir que dá para cobrar mais. É o velho manual do capital paciente que adora se vestir de inovação, e que nada tem de espontâneo no resultado final, porque depende de juros artificialmente baixos e de uma enxurrada de dinheiro impresso procurando para onde correr.

Me diz uma coisa, quem realmente pagou a festa do streaming barato? Pagou o artista que recebe uma fração de centavo por execução. Pagou o pequeno selo que não conseguiu sobreviver à comoditização do catálogo. Pagou o consumidor que trocou propriedade por aluguel perpétuo, achando que ganhou conveniência quando, na verdade, perdeu o direito de possuir aquilo pelo qual paga todo mês. E pagou, no fim, a própria cultura musical, que se ajustou ao algoritmo, encurtou as músicas, padronizou os ganchos, espremeu a criatividade dentro de uma régua estatística que recompensa o que é palatável e pune o que é estranho. A diversidade prometida virou um cardápio infinito de variações da mesma coisa.

Agora a empresa enfrenta o ciclo que ela própria ensinou ao mundo. A inteligência artificial generativa promete fazer com o Spotify o que o Spotify fez com a Tower Records: oferecer mais, mais barato, mais rápido, mais personalizado, até que o intermediário pareça um pedágio absurdo entre o ouvinte e a trilha sonora da própria vida. E aqui mora a beleza amarga do mercado livre quando ele funciona de fato: ninguém é grande o suficiente para escapar dele, ninguém é inovador o suficiente para não ser inovado, ninguém constrói fosso fundo o bastante que outro não venha cavar mais fundo do lado. O que se vê é a margem do trimestre; o que não se vê é a guilhotina silenciosa sendo afiada na garagem de algum engenheiro em Bangalore ou São Francisco.

Há ainda o detalhe deliciosamente irônico do poder de precificação recém-descoberto. Durante anos, o discurso oficial foi que o streaming democratizou o acesso, que era impossível subir o preço porque a concorrência era feroz, que a margem fina era virtude e não estratégia. Bastou a concorrência minguar e os reajustes começaram a chover, primeiro tímidos, depois confiantes, agora projetados em série pelos relatórios. É o velho roteiro do monopsônio se firmando, ditando preço para quem vende, ditando preço para quem compra e contando com a inércia do consumidor que já não lembra mais como era a vida antes do aplicativo. A liberdade prometida pela tecnologia, quando examinada de perto, tem o cheiro familiar de qualquer monopólio velho de guerra.

O analista de banco que assinou a SWOT vai falar em oportunidades e ameaças como quem comenta o tempo. O leitor atento percebe outra coisa: uma empresa que dominou um mercado destruindo a propriedade do consumidor sobre a música, esmagando o produtor cultural até a quase irrelevância econômica e padronizando o gosto de meio planeta, agora reza para que o próximo ciclo de destruição criativa demore um pouco mais a chegar. Não vai demorar. Nunca demora. Quem viveu da disrupção alheia morre da disrupção própria, e isso é a coisa mais justa que o mercado sabe fazer.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.