Angola fechou a operação de recompra de US$ 750 milhões em eurobonds via oferta pública e o comunicado oficial veio embrulhado naquele papel de presente que todo Tesouro do mundo usa quando precisa disfarçar fragilidade como virtude. Gestão proativa do passivo, suavização do perfil de vencimento, sinalização ao mercado, a liturgia inteira. Quer dizer, o país não pagou dívida; o país refinanciou dívida. Há uma diferença abissal entre quitar e rolar, e essa diferença é exatamente o lugar onde governos gostam de esconder a conta que vai chegar para o contribuinte angolano daqui a cinco, sete, dez anos.
Olha, a aritmética é tosca quando se afasta a fumaça do marketing financeiro. Para recomprar setecentos e cinquenta milhões de dólares de papel antigo, alguém precisou emitir papel novo, captar reservas, ou queimar receita de petróleo que faria muito mais pelo angolano comum se virasse infraestrutura, energia barata, ou, sonho impossível, redução de carga tributária. O que se vê é o anúncio triunfal em Bloomberg. O que não se vê é o custo de oportunidade de cada dólar que saiu do caixa soberano para acariciar a curva de juros do mercado secundário em Londres. E o que não se vê quase nunca aparece nas manchetes.
Me diz uma coisa, quem ganha de verdade com esse tipo de operação? Os detentores institucionais dos títulos antigos, que receberam um prêmio sobre o preço de mercado e saíram com lucro. Os bancos de investimento que estruturaram a oferta e faturaram comissão gorda. Os assessores, os advogados de Nova York, os escritórios de relações com investidores. O angolano que paga IVA na padaria de Luanda? Esse não aparece na lista. Esse aparece só na nota de rodapé chamada serviço da dívida pública, linha que continua engolindo o orçamento enquanto escolas seguem sem teto e hospitais sem insulina.
O ponto mais cínico de toda essa engenharia é a narrativa de que recomprar dívida é sinal de saúde fiscal. Não é. País saudável não precisa ficar trocando passivo a cada dois anos para mostrar ao mercado que ainda respira. País saudável produz superávit, acumula reserva, paga e some. Angola não está pagando; está reorganizando os móveis da sala enquanto o telhado vaza. E o telhado vaza porque a estrutura produtiva continua refém de uma única commodity, de uma máquina estatal inchada, e de uma classe política que descobriu há décadas que petróleo, quando mal administrado, vira maldição em vez de bênção.
Há uma lição antiga, repetida desde os impérios mercantilistas até as repúblicas bananeiras do século vinte, que diz o seguinte: todo governo que se especializa em rolar dívida acaba descobrindo, sempre tarde demais, que o mercado tem paciência finita e memória longa. Os juros que hoje parecem aceitáveis serão amanhã o argumento que credores usarão para apertar covenants, exigir colateral, ditar reformas. A soberania financeira não se perde num único decreto; perde-se em fatias, recompra após recompra, até que o ministro da Fazenda descubra que não governa mais o próprio orçamento.
No fim, o que sobra dessa operação não é alívio nem virtude. É tempo comprado a juros, com dinheiro que não é dos burocratas que assinaram o papel, sacado contra o futuro de gente que sequer foi consultada. Chamar isso de gestão responsável é o mesmo que chamar o cartão de crédito do filho de planejamento familiar do pai. Dívida não desaparece quando se recompra; muda de prateleira, ganha laço, e espera.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.