Reparou na sinceridade involuntária? O líder do governo no Congresso saiu a público e disse, com todas as letras, que a rejeição do nome de Jorge Messias para a vaga no Supremo Tribunal Federal aconteceu porque a eleição de 2026 já começou. Traduzindo do palaciano para o português: senadores não votaram olhando para a Constituição, para o currículo do indicado ou para o equilíbrio dos poderes, votaram olhando para a urna que vem aí. E o governo, em vez de esconder esse troféu vergonhoso, exibiu como justificativa. Quer dizer, a confissão é a defesa. Estamos num estágio tão avançado de cinismo institucional que admitir o vício virou estratégia retórica.
Olha o que está embutido nessa frase aparentemente trivial. O parlamentar reconhece que existe uma base bolsonarista de quase trinta e cinco senadores, que a base governista é minoritária, e que o calendário eleitoral antecipou os instintos de sobrevivência política da Casa. Tudo bem, é descritivamente verdadeiro. Mas a pergunta que ninguém faz é a única que importa: por que diabos a composição da mais alta corte do país depende do humor da próxima campanha? A resposta é desconfortável. Porque o Supremo deixou de ser tribunal há muito tempo e virou prêmio político, moeda de troca, ativo de barganha. E quando um cargo vira ativo, ele segue as leis do mercado político, não as do direito.
Aqui vale seguir o dinheiro, ou melhor, seguir o poder, que no Brasil é a mesma coisa. Cada vaga no Supremo carrega consigo decisões bilionárias sobre tributos, marcos regulatórios, dívidas de estados, anistias fiscais, julgamentos que movimentam o PIB de países pequenos. Indicar um ministro é entregar a chave do cofre por duas décadas. Por isso a disputa é feroz, por isso a base bolsonarista barrou, por isso o governo escolheu um nome do círculo íntimo. Ninguém ali está preocupado com jurisprudência, estão todos calculando dividendos. E o cidadão pagante, esse herói anônimo que sustenta a festa toda, descobre pela manchete que sua suprema corte é negociada como cota de fundo imobiliário.
Há uma ironia histórica saborosa nisso tudo. Repúblicas decadentes sempre revelam seu colapso pela mesma porta: quando as instituições deixam de funcionar pelas regras escritas e passam a funcionar pela aritmética dos calendários eleitorais. Foi assim em Roma, quando o Senado virou clube de tribunos comprando favores futuros. Foi assim na Terceira República francesa, quando ministros eram trocados como cartas de baralho conforme o vento das províncias. E é assim no Brasil de hoje, onde um indicado para a vaga máxima do Judiciário é rejeitado não pelo que é, mas pelo medo do que sua presença significaria na narrativa de campanha do ano seguinte. As instituições não morrem por golpe, morrem por desidratação semântica. Vão perdendo o sentido até virarem fantasia.
O detalhe mais revelador é o tom resignado do governo. Não há indignação, não há denúncia da quebra de decoro, não há reação contra o uso eleitoreiro do processo de sabatina. Há apenas constatação morna, quase administrativa, como quem comenta o tempo. Isso é o que mais assusta. A naturalização do absurdo é o último estágio antes da capitulação completa. Quando ninguém mais se choca com a politização explícita do Supremo, é porque já aceitamos viver sob um regime onde o Direito é apenas a continuação da política por outros meios, e a política é apenas a continuação do interesse pessoal por outros meios. O cidadão fica com a conta, com o silêncio e com a sensação cada vez mais nítida de que está sendo administrado, não governado.
Me diz uma coisa, se a vaga no Supremo é decidida pela conveniência do calendário eleitoral, para que serve a Constituição, para que serve a sabatina, para que serve a pretensa separação dos poderes? Servem para o discurso de posse e para o cerimonial. No resto, o Brasil opera como sempre operou: três poderes, uma única lógica, a do mercado de favores. E a notícia honesta é essa, dita sem querer pelo próprio líder do governo. O resto é figurino.
Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.