A notícia saiu sem o alarde que merecia, talvez porque ninguém em sã consciência sabe mais o que fazer com ela. A Anthropic, fabricante de um dos modelos de inteligência artificial mais sofisticados em operação, veio a público dizer que a IA já está acelerando o próprio desenvolvimento da IA. Em português claro, a ferramenta agora ajuda a construir a próxima versão dela mesma, e a próxima ajuda a construir a seguinte, e o ciclo se encurta a cada rodada. É o velho sonho do aprendiz de feiticeiro, só que desta vez o feiticeiro confessou em entrevista que perdeu a vassoura de vista.

Pare e pense no que isso significa em termos de conhecimento disperso. Durante séculos, o argumento contra o planejamento central foi simples e devastador, nenhuma cabeça humana, nenhum comitê, nenhum ministério consegue agregar a informação que está espalhada entre bilhões de pessoas tomando decisões em tempo real. O mercado fazia esse trabalho via preços, e fazia bem. Agora aparece uma tecnologia capaz de processar essa avalanche de informação numa velocidade que torna obsoleta qualquer pretensão burocrática de "regular o setor". O regulador chega à reunião com uma prancheta, a tecnologia já mudou três vezes antes do café ser servido.

E aqui está o detalhe que ninguém quer encarar, a curva é exponencial. Cada melhoria reduz o tempo para a próxima melhoria. O que levava dois anos passa a levar oito meses, depois três, depois algumas semanas. Os próprios fundadores da empresa estão dizendo, com a cara lavada, que não conseguem mais prever o ritmo. Quer dizer, a coisa cresceu mais rápido do que os pais conseguem acompanhar, e os pais estão pedindo socorro para o governo, que historicamente tem o reflexo de um preguiçoso anestesiado.

Siga o dinheiro e a história fica mais interessante. As mesmas big techs que pedem regulação são as únicas que têm caixa para cumpri-la. Cada relatório de compliance, cada exigência de auditoria algorítmica, cada certificação obrigatória que aparecer no horizonte funcionará como muro de proteção para os incumbentes e como sentença de morte para qualquer startup de garagem que ousasse competir. O cartel chega vestido de preocupação ética, com a bênção do parlamentar de plantão e o aplauso da imprensa, que confunde captura regulatória com responsabilidade social.

Enquanto isso, o Brasil de 2026 segue discutindo se Uber é vínculo empregatício, se influenciador digital paga ISS, se streaming entra no IPI. Estamos legislando sobre o século vinte enquanto o século vinte e dois bate na porta. A defasagem não é tecnológica, é mental, e ela vai cobrar caro. Países que entenderem que o ganho de produtividade trazido por essa onda é o maior choque civilizacional desde a eletricidade vão prosperar de um jeito que a média do brasileiro nem consegue imaginar. Os outros vão exportar mão de obra barata e importar dependência.

Tem gente apavorada com a IA tomando empregos, e a preocupação é legítima na superfície, mas falsa no fundo. Toda revolução tecnológica destruiu profissões e criou outras que ninguém conseguia prever. O tear mecânico não acabou com o trabalho, acabou com o tecelão artesanal e abriu espaço para o engenheiro têxtil. O que mata emprego de verdade é imposto sobre folha, é encargo trabalhista do tamanho de um continente, é insegurança jurídica que faz empresário pensar três vezes antes de contratar. A máquina que aprende sozinha é só o espelho onde a nossa decadência institucional vai aparecer com nitidez cruel. Quem estiver de pé quando a poeira baixar não vai ser quem regulou mais, vai ser quem deixou as pessoas livres para inventar.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.