Sessenta e cinco bilhões de dólares numa única rodada. Para se ter ideia do tamanho do número, é mais do que o PIB anual de uma porção respeitável de países, é mais do que a Petrobras vale em bolsa, é mais do que o orçamento de vários ministérios brasileiros somados. E tudo isso entregue a uma empresa que ainda não descobriu como gerar lucro consistente, que queima bilhões por trimestre treinando modelos cada vez maiores, e que justifica o valuation com a promessa etérea de que um dia, em algum momento futuro nebuloso, vai dominar o mundo. Quer dizer, é fé pura travestida de planilha.

Olha, quando um ativo é avaliado em quase um trilhão de dólares sem fluxo de caixa que justifique nem um décimo disso, não estamos diante de capitalismo de mercado. Estamos diante do resultado direto de uma década e meia de juros artificialmente baixos, de impressão monetária desenfreada, de oceanos de liquidez procurando desesperadamente onde se alojar. O dinheiro que inunda o Vale do Silício não brotou do esforço produtivo de ninguém. Brotou da impressora de Washington, da expansão de crédito que transformou bancos centrais em distribuidores de cocaína financeira para os mercados. E quando a droga é gratuita, o vício parece genialidade.

Me diz uma coisa, quem está colocando o dinheiro? Fundos soberanos do Oriente Médio, gigantes da tecnologia que viraram bancos disfarçados, fundos de pensão que precisam achar retorno em qualquer lugar porque os juros reais corroeram suas margens, e a velha máquina do capital de risco que opera com a lógica do cassino. Siga a trilha e vai parar sempre no mesmo ponto: dinheiro fácil produzido por governos buscando ativo escasso para se proteger. Só que o ativo não é escasso, é narrativa. E narrativa, ao contrário de ouro, pode ser produzida em escala industrial pelos próprios beneficiários.

Tem ainda o detalhe que ninguém quer discutir em voz alta. Uma empresa avaliada em quase um trilhão de dólares vira automaticamente parceira estratégica de governos, vira instrumento de política industrial, vira ativo de segurança nacional. O casamento entre Estado e essas gigantes de tecnologia já está consumado faz tempo, com regulação sob medida, contratos públicos generosos e a promessa implícita de que, se a bolha estourar, o contribuinte cobre o prejuízo. Privatizam o lucro e socializam o tombo, fórmula consagrada desde os tempos das tulipas holandesas.

A história econômica é cruel com quem confunde liquidez abundante com criação genuína de valor. Toda mania especulativa repete o mesmo enredo: um setor real e promissor serve de pretexto para uma orgia de avaliações desconectadas da realidade, os primeiros a entrar enriquecem absurdamente, os últimos a chegar pagam a conta inteira. Ferrovias no século dezenove, rádio nos anos vinte, internet em mil novecentos e noventa e nove, imóveis americanos em dois mil e oito. A inteligência artificial é real, a tecnologia é poderosa, e nada disso impede que o preço esteja delirantemente errado.

O que importa para quem observa de longe é entender o mecanismo. Não é o mérito da Anthropic que está sendo precificado em novecentos e sessenta e cinco bilhões, é o desespero do dinheiro fiduciário em encontrar destino antes que derreta nas mãos de quem o segura. Quando a moeda é confiável, ninguém precisa pagar fortunas absurdas por promessas. Quando a moeda apodrece, qualquer narrativa decente vira ativo refúgio. O valuation da Anthropic não fala sobre inteligência artificial, fala sobre o estado terminal das moedas estatais. E a conta, como sempre, vai chegar para quem nunca foi convidado para a festa.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.