A notícia chegou com aquele ar de escândalo abafado que o Vale do Silício tanto aprecia. O diretor de produto de uma gigante da inteligência artificial, sentado confortavelmente no conselho de uma empresa cujo negócio é justamente ajudar designers a criar interfaces, anunciou a saída do board poucos dias depois de vazar que sua própria companhia prepara um produto concorrente. Não foi uma saída espontânea de quem descobriu um conflito ético na véspera. Foi a retirada calculada de quem já tinha colhido tudo que precisava colher.
O leitor atento deve recordar como funcionavam as guildas medievais. Quem entrava no conselho de outra guilda jurava, sob pena de excomunhão comercial, não usar aquele assento para espionagem industrial. A palavra empenhada valia mais do que contrato, porque a quebra da confiança significava a expulsão do ofício. Hoje, no mundo dos chamados visionários da tecnologia, o assento de conselheiro virou binóculo panorâmico. Senta-se ali para ver a cozinha do vizinho, anotar a receita, e depois inaugurar o restaurante da esquina vendendo o mesmo prato, só que em cores mais vibrantes e com assinatura de inteligência artificial.
O curioso é que o mercado recebe esses movimentos com aquele silêncio reverente que antigamente se reservava às relíquias. Ninguém pergunta por que um conselheiro de uma das plataformas mais sensíveis do setor criativo tinha autorização para acessar roadmap, métricas internas e estratégia de precificação, ao mesmo tempo em que sua empresa desenvolvia, em laboratório, exatamente a ferramenta que tornaria aquela plataforma obsoleta. A resposta, como quase sempre, está no dinheiro. A empresa em questão recebeu aportes bilionários de fundos que também apostam pesado no setor de design automatizado. Quando as fichas estão na mesma bandeja, a fidelidade é sempre com a bandeja.
O pitoresco anúncio de um suposto apocalipse do software como serviço, que os próprios executivos agora sussurram nos corredores, mostra a contradição central desse ciclo. Venderam por quinze anos a ideia de que assinar aplicativos mensalmente libertaria o usuário da tirania das licenças perpétuas. Agora, quando a inteligência artificial promete gerar em segundos o que antes exigia planos anuais de centenas de dólares, os mesmos profetas correm para canibalizar os próprios inquilinos antes que um estranho o faça primeiro. É a lei darwiniana aplicada com elegância de predador bem vestido.
O que essa pequena saga ensina ao observador brasileiro, acostumado a tratar qualquer figura do Vale como semideus iluminado, é simples. O ecossistema que se apresenta como república de gênios cooperativos funciona, na prática, como corte renascentista cheia de punhais sob a capa. Quem senta na mesa do rival está medindo o tamanho do pescoço. E quando o golpe vem, vem embrulhado em nota de imprensa cuidadosamente redigida, falando em novos rumos e oportunidades estratégicas, como se a traição fosse apenas mais um item do cronograma trimestral.
Resta saber se a plataforma traída aprenderá a lição, ou se repetirá o erro convidando o próximo conselheiro que chegar com sorriso largo e cheque de investimento no bolso. A história tem pouca paciência com quem insiste em hospedar o lobo no quintal e depois se espanta com o desaparecimento das ovelhas. Confiança é bem raro no comércio. Quando se perde, raramente volta a existir.
Com informações da TechCrunch. A análise e opinião são do O Algoz.