Recolhimento voluntário. Reparem na escolha das palavras, porque o vocabulário oficial é sempre uma confissão disfarçada de virtude. A Coca-Cola, dona da marca Crystal, não recolheu o lote porque acordou virtuosa numa manhã de segunda-feira; recolheu porque foi flagrada vendendo água com bactéria, e o adjetivo voluntário entrou ali como um verniz de civilidade sobre um problema que, sem o flagrante, seguiria escorrendo garganta abaixo do consumidor que confiou no rótulo.
Agora, me diz uma coisa. Para que serve uma agência reguladora que custa bilhões aos cofres públicos, emprega exércitos de fiscais, emite normas técnicas suficientes para encher uma biblioteca jurídica, se no fim das contas a bactéria chega à prateleira do supermercado e só é descoberta depois que alguém já bebeu? O argumento de sempre é que sem a Anvisa seria pior. Talvez. Mas o que se vê é a contaminação confirmada; o que não se vê é quanto custou ao consumidor manter uma estrutura que falhou justamente naquilo que justifica a sua existência. O selo virou liturgia, o carimbo virou indulgência paga, e o resultado prático é que o cidadão paga duas vezes: uma pela água, outra pelo regulador que não regulou.
Vale seguir o dinheiro, porque o dinheiro nunca mente. Empresas gigantes, dessas que dominam prateleiras inteiras de supermercado, adoram regulação pesada. Parece paradoxo, mas não é. Quanto mais norma técnica, mais licença, mais protocolo sanitário, mais barreira para o concorrente pequeno que produziria água mineral honesta na fonte da serra e venderia mais barato sem precisar de departamento jurídico do tamanho de um ministério. A regulação que deveria proteger o consumidor protege, na prática, a posição de mercado de quem já está dentro. E quando o problema aparece dentro, recolhe-se voluntariamente, com nota oficial, sem multa que doa, sem executivo preso, sem ninguém respondendo no próprio bolso.
Há uma lição mais antiga aqui, e ela não tem nada de moderna. Toda vez que a sociedade terceiriza para o Estado a função de confiar, ela desaprende a confiar por conta própria. O consumidor não pergunta mais de onde vem a água, quem é o engarrafador, qual a reputação local da empresa; ele lê o rótulo, vê o registro, e segue em frente como criança que aceita o doce porque a mãe disse que pode. A tutela infantiliza, e o infantilizado paga caro pela ilusão de segurança que recebe em troca da própria vigilância. Quando a bactéria aparece, a reação é exigir mais Anvisa, mais norma, mais fiscalização, mais carimbo. Ou seja, exigir mais da mesma coisa que falhou. É a definição clássica de insistir no erro fantasiada de prudência.
O mercado livre, esse que tanto assusta os colunistas de jornal grande, resolveria isto de maneira brutal e elegante ao mesmo tempo. Uma marca que vende água contaminada quebra. Não recebe nota oficial gentil, não negocia prazo de recolhimento, não estampa pedido de desculpas em rede social com tom corporativo. Quebra, perde clientes para o concorrente que não contaminou, e o concorrente cresce porque foi competente. A reputação, num ambiente sem o escudo regulatório, é o ativo mais caro que uma empresa possui, porque é o único que o dinheiro não compra de volta depois de perdido. Com a Anvisa servindo de para-raios moral, a Coca-Cola sabe que basta um comunicado bem redigido e, na semana seguinte, ninguém mais lembra.
O escândalo, portanto, não está na bactéria. Bactéria existe, sempre existiu, e existirá enquanto houver água parada e descuido humano. O escândalo está no arranjo institucional que cobra do cidadão o preço de uma vigilância que não vigia, vende a ilusão de uma proteção que não protege, e ainda transforma a falha flagrante em ato voluntário de boa vontade empresarial. O consumidor brasileiro engoliu a bactéria, e o que ele precisa cuspir é o sistema que fez isso parecer normal.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.