A Forvia, gigante francesa que nasceu da fusão entre Faurecia e Hella, está vendendo sua divisão de interiores automotivos por 1,82 bilhão de euros para a Apollo, um dos maiores fundos de private equity do planeta. O comprador é especialista em comprar empresas endividadas, espremer caixa, cortar custos, alavancar mais dívida em cima da estrutura adquirida e revender ou abrir capital cinco anos depois com retorno gordo. O negócio foi anunciado na segunda-feira como se fosse mais uma transação de balcão. Não é. É sintoma.
A Forvia não está vendendo porque quer. Está vendendo porque precisa. Carrega cerca de sete bilhões de euros em dívida líquida, sangra em meio à transição forçada para o veículo elétrico que ninguém pediu mas todo regulador europeu impôs, e enfrenta um mercado automotivo que encolhe na Alemanha, derrete na França e foi engolido pelos chineses na disputa por margem. Quando a empresa decide cortar um pedaço do próprio corpo para sobreviver, o abutre já está pousado no galho ao lado, esperando. E o abutre, no caso, tem nome, CNPJ e trilhões de dólares sob gestão.
Olha, há uma pergunta que ninguém faz no meio dessas manchetes: de onde a Apollo tira esse dinheiro? A resposta incomoda. Tira de pensão de professor americano, de fundo soberano árabe, de seguradora que precisa render acima da inflação fabricada pelos próprios bancos centrais que financiaram a farra. E tira, sobretudo, de uma estrutura de crédito barato montada por décadas de juros artificialmente baixos, que tornou possível alavancar dez, vinte, trinta vezes o capital próprio para comprar empresas reais que outras pessoas levaram cinquenta anos para construir. O dinheiro fácil não criou prosperidade. Criou concentração.
O que vai acontecer com a unidade comprada qualquer um com memória já consegue prever. Reestruturação, demissões, fechamento de plantas pouco eficientes, transferência de produção para geografias mais baratas, alavancagem nova despejada em cima da empresa adquirida para devolver capital ao fundo via dividendo extraordinário, e em cinco anos uma operação enxuta vendida ao próximo elo da cadeia ou jogada na bolsa com narrativa polida. Os operários franceses e tchecos que montavam painéis e bancos descobrirão que o capitalismo, na versão financeirizada de hoje, não tem rosto, não tem bairro, não tem pátria. Tem planilha.
E aqui mora o ponto que os defensores do livre mercado precisam encarar sem pestanejar. Isto não é mercado livre. É mercado capturado. Um mercado livre de verdade não premiaria com retornos de vinte por cento ao ano quem apenas reorganiza ativos existentes enquanto pune com retornos de quatro por cento quem efetivamente produz coisas. A distorção não nasce da ganância privada, que é constante humana e portanto previsível. Nasce da impressora estatal que jogou décadas de liquidez no sistema, fabricou o juro zero, inflou o valor dos ativos financeiros, e tornou comprar empresa mais lucrativo do que abrir empresa. Quando o sinal de preços é falsificado pelo poder público, o capital migra para onde a mentira é maior.
A indústria europeia está sendo desmontada parafuso por parafuso, e o continente que inventou a revolução industrial assiste passivo enquanto fundos americanos compram sua memória produtiva a preço de liquidação. Não é tragédia inevitável. É consequência matemática de escolhas políticas que ninguém quer auditar. E quando a última fábrica francesa virar centro logístico de um conglomerado registrado em Delaware, alguém ainda terá a ousadia de dizer que foi o capitalismo que falhou.
Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.