Começam neste domingo as apostas para o concurso especial dos trinta anos da Mega-Sena, com prêmio estimado em R$ 200 milhões e sorteio marcado para o dia 24. A imprensa econômica reproduz o anúncio com a naturalidade de quem informa a previsão do tempo, como se fosse evidente que um monopólio estatal de jogos de azar, operado por um banco público, faturando bilhões em cima da matemática que ele próprio escreve, fosse coisa banal. Não é. É uma das engrenagens mais cínicas da máquina arrecadatória brasileira, e funciona porque ninguém quer enxergar.

Olha, a aritmética é constrangedora quando se tem a coragem de fazê-la. A chance de acertar a sena com uma aposta simples é de uma em cinquenta milhões e meio. Para se ter ideia, é mais provável você ser atingido por um raio duas vezes na mesma semana do que faturar esse prêmio. E mesmo assim, a Caixa retira da arrecadação algo em torno de quarenta a cinquenta por cento antes que um único centavo chegue a qualquer ganhador, fatia que se desdobra em repasses ao Tesouro, a fundos de segurança pública, ao esporte, à cultura, à seguridade. Quer dizer, é tributo. Mas é tributo que o sujeito paga cantarolando, com aquele sorrisinho de quem acha que vai furar a fila do destino.

E é aí que mora o golpe mais sofisticado: o Estado descobriu que cobrar imposto dói, mas vender sonho rende. O mesmo cidadão que xinga o leão na declaração entrega cinco reais na lotérica sem reclamar, e entrega de novo no concurso seguinte, e no seguinte. Quem mais aposta, percentualmente falando, é justamente quem ganha menos, gente que reserva uma fração relevante da renda mensal para comprar bilhete de uma rifa cuja banca é o próprio governo. A política pública mais regressiva do país não vem disfarçada de CPMF nem de imposto sobre dividendo. Vem com palhaço, jingle e tambor de televisão.

Me diz uma coisa: se uma empresa privada montasse esquema idêntico, com prêmio inflado, probabilidade absurda e propaganda saturando o horário nobre para fisgar o trabalhador no fim do mês, quanto tempo levaria até a Procuradoria abrir investigação por publicidade abusiva e exploração da hipossuficiência do consumidor? Dois dias? Três? Mas quando o operador é o Estado, vira programa social. O mesmo governo que proíbe o cigarro de ter cor na embalagem patrocina, com dinheiro público e horário nobre, a maior máquina de exploração do viés cognitivo já montada no hemisfério sul. A hipocrisia é tão grossa que dispensa lupa.

Tem ainda o lado invisível, aquele que ninguém calcula porque ninguém quer ver. Cada nota de cinco reais que entra na lotérica é uma nota que não foi para o caixa da padaria, da oficina, do salão, do mercadinho da esquina. Quando duzentos milhões saem do bolso pulverizado dos apostadores e entram, em parte, no caixa único do Tesouro, o efeito líquido sobre a economia real é negativo, porque dinheiro disperso em mil pequenas trocas voluntárias gera muito mais riqueza do que dinheiro concentrado num cofre estatal que vai financiar, com sorte, mais um andar de prédio público em Brasília. O bilhete premiado de um faz manchete; o empobrecimento silencioso de milhões não rende capa em lugar nenhum.

Trinta anos de Mega-Sena, portanto, não são trinta anos de festa nacional, são trinta anos de uma das operações de transferência de renda mais perversas que este país já desenhou, do bolso de quem tem pouco para o caixa de quem já manda em tudo. O sonho de ficar rico de uma vez é vendido para que ninguém precise discutir por que é tão difícil enriquecer aos poucos. Enquanto o brasileiro acreditar que sua salvação financeira cabe num volante de seis dezenas, o sujeito que de fato deveria estar prestando contas continua dormindo tranquilo, contando, ele sim, a bolada certa que pinga toda semana, sem precisar de sorteio nenhum.

Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.