Aconteceu, e aconteceu como sempre acontece o que importa de verdade no Oriente Médio, sem comunicado, sem coletiva, sem aquela encenação solene de chancelaria. Aviões sauditas teriam atingido posições iranianas em operações que ninguém assinou, ninguém reivindicou e ninguém vai investigar com seriedade. O mercado de petróleo, esse oráculo que costuma histeriar com um espirro do Estreito de Ormuz, recebeu a informação e bocejou. Quando o barril não se mexe diante de uma notícia dessas, ou a notícia é menos grave do que parece, ou alguém muito grande já comprou silêncio antecipado. Pelo padrão da casa, aposte na segunda.

Me diz uma coisa, desde quando guerra entre potências regionais com dois trilhões de dólares em reservas combinadas é coisa que se faz no escuro? A resposta é simples e desconfortável, é assim desde sempre, e o que mudou não foi a prática, foi a hipocrisia do entorno. Riad precisa do verniz de modernização para vender Aramco em Wall Street, Teerã precisa fingir que controla os rebeldes que paga em Sanaa, Washington precisa fingir que não sabia, e Pequim aproveita o ruído para abocanhar mais um contrato de longo prazo no Golfo. Cada ator desse teatro vende uma narrativa diferente para uma plateia diferente, e quem paga o cachê do elenco inteiro é o trabalhador da bomba de gasolina em Goiânia, que nunca ouviu falar em Houthis nem em Quds Force.

Siga o dinheiro, que ele nunca mente. A defesa saudita comprou nos últimos cinco anos perto de cem bilhões de dólares em armamento ocidental, e arsenal parado em hangar custa caro, dá manutenção, atrai auditoria. Arsenal usado em missão silenciosa, ao contrário, vira encomenda nova, vira contrato de reposição, vira lobista feliz em Washington reservando mesa no Capital Grille. O complexo industrial militar não inventa guerras todo dia, mas quando uma aparece quentinha no balcão, ele agradece com aplauso de pé. Já do lado iraniano, o regime dos aiatolás precisa de inimigo externo como peixe precisa de água, é o oxigênio que justifica racionamento, repressão, prisão de mulher por causa de fio de cabelo aparecendo do hijab. Bombardeio saudita não é tragédia para Teerã, é matéria-prima de propaganda doméstica.

Olha, há uma lição embutida nesse silêncio diplomático que vale mais que qualquer doutrina de política externa em PowerPoint. Quando dois Estados que se odeiam abertamente conseguem trocar projéteis sem virar capa de jornal, é porque ambos os regimes precisam mais da continuidade do conflito do que de uma vitória definitiva. Guerra eterna é folha de pagamento garantida, é desculpa permanente para censura interna, é justificativa para tarifa, para subsídio à estatal de petróleo, para imposto extraordinário com nome bonito. Paz é ruim para o orçamento de quem vive de tensão. E quem acha que isso é exclusividade árabe ou persa, abra o jornal e veja como a guerra na Ucrânia mantém vivos pacotes fiscais que em tempo de paz não passariam nem na recepção do Tesouro.

O brasileiro, que tropeça em geopolítica como pinguim em piso encerado, precisa entender que cada ataque silencioso desses chega aqui pelo bolso, atravessando o Atlântico em forma de diesel mais caro, frete mais caro, prateleira de supermercado mais cara. A Petrobras vai culpar a paridade, o governo vai culpar a Petrobras, a oposição vai culpar o governo, e ninguém vai dizer a coisa óbvia, que estamos amarrados a uma cadeia energética cujo elo mais frágil é decidido por dois reis e um aiatolá que sequer sabem onde fica Brasília no mapa. Soberania energética não se conquista com discurso em plenário, conquista-se com diversificação real, com nuclear, com gás de xisto, com fim do monopólio que transformou nossa maior empresa em refém de pauta política a cada quatro anos.

O barril ficar parado diante de bombardeios não revela serenidade do mercado, revela que o mercado já precificou que nada será feito, que ninguém vai ao Conselho de Segurança, que a ONU vai emitir uma nota redigida por estagiário, que o próximo round será exatamente igual ao anterior. A previsibilidade do caos é o luxo dos poderosos e o pesadelo dos pequenos. E enquanto o resto do mundo finge não ver, alguém em algum cofre conta a comissão da próxima remessa de mísseis, sorrindo com a tranquilidade de quem sabe que paz não dá dividendo.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.