O preço do café arábica bateu recorde histórico nas bolsas internacionais, rompendo marcas que não eram vistas há décadas, e a notícia foi apresentada pela imprensa especializada como se fosse um fenômeno climático, uma força da natureza, algo que simplesmente "aconteceu". Não aconteceu. Foi feito. Dois governos decidiram usar a economia como campo de batalha por uma questão de deportações, aviões militares e ego presidencial, e o resultado foi parar no preço do seu espresso.
O episódio começa com o presidente colombiano Gustavo Petro, socialista da cepa mais pura, recusando-se a deixar pousar voos militares americanos carregando deportados. Trump respondeu com a artilharia que tem à disposição: ameaça de tarifa de 25% sobre todos os produtos colombianos, escalando para 50% em uma semana, mais sanções bancárias, bloqueio de vistos e o pacote completo de humilhação econômica. A Colômbia capitulou em horas. O acordo foi fechado. As tarifas nunca foram formalmente impostas. Vitória americana, derrota do Petro, fim da crise. E o café, mesmo assim, continuou subindo.
Aqui está o escândalo real, o que nenhuma cobertura de mercado explica direito: o dano não foi causado pela tarifa, foi causado pela possibilidade da tarifa. Isso é o que o pensamento econômico convencional não consegue digerir. O mercado não reage ao que acontece, reage ao que pode acontecer. Quando um governo anuncia que talvez vá interferir numa cadeia de abastecimento que move 30% das importações americanas de café, os contratos futuros disparam, os especuladores se posicionam, os torrefadores travam estoques e os varejistas repassam o susto ao consumidor antes mesmo de saber se o susto era real. A ameaça é suficiente. O político mal precisou apertar um botão e já cobrou o imposto, só que sem arrecadar nada. Destruição pura, sem receita.
A Colômbia é o terceiro maior produtor de café do mundo e o segundo maior de arábica, responsável por algo em torno de um terço do que os americanos bebem pela manhã. Quando uma autoridade política decide transformar esse elo logístico em alavanca de pressão diplomática, não está apenas jogando com planilhas de comércio exterior. Está mexendo com a xícara de quatrocentos milhões de pessoas. Quer dizer, há séculos os impérios fazem exatamente isso: bloqueiam portos, taxam especiarias, decretam embargos de grãos, e a história sempre registra com pompa o nome do estadista que assinou o decreto. O nome do consumidor que pagou mais pelo pão nunca entra nos livros.
Olha, o que é fascinante na mecânica desse episódio é a velocidade com que um tweet presidencial se transforma em realidade econômica para alguém que nunca ouviu falar do impasse sobre os voos de deportação. O fazendeiro colombiano não decidiu nada. O torrefador brasileiro não decidiu nada. O dono do café na esquina não decidiu nada. Dois chefes de Estado mediocres tiveram uma briga de alphas, o mercado interpretou o sinal de fumaça, e o preço do arábica subiu mais de 80% em relação ao mesmo período do ano anterior. Me diz uma coisa: quem deu esse poder a esses dois homens de fazer o seu café ficar mais caro por uma querela sobre aviões militares? Ninguém te perguntou. Ninguém me perguntou. A decisão foi tomada nos andares onde as decisões são sempre tomadas, e a conta desceu pelo elevador social até chegar no andar térreo, que é onde você está.
E o desfecho tem aquela ironia particular que só a realidade produz sem esforço: a ameaça foi retirada, o acordo foi firmado, a crise foi "resolvida" com fanfarra diplomática, e o café não baixou. Os preços já tinham encontrado um novo patamar, os especuladores já tinham embolsado a diferença, os contratos futuros já refletiam um mundo onde governos podem, a qualquer momento, decretar que uma commodity estratégica virou peça de xadrez geopolítico. O risco político ficou precificado. Ficou permanente. A próxima ameaça vai subir de um patamar mais alto. É assim que a incerteza produzida pelo poder se instala nas economias: não como evento, mas como condição estrutural. Você paga agora pelo que pode acontecer depois, indefinidamente, enquanto os estadistas dos dois lados forem aplaudidos por "defender os interesses nacionais".
Com informações do Wall Street Journal. A análise e opinião são do O Algoz.