Abbas Araghchi abriu a boca em Teerã e o Brent recuou alguns dólares na mesma hora, o que diz muito mais sobre o estado da economia mundial do que sobre a diplomacia iraniana. O recado oficial é simples e quase comovente na sua obviedade: o Estreito de Ormuz, por onde escorrem cerca de vinte por cento do petróleo do planeta, não comporta solução militar. Quer dizer, foi preciso um aiatolá em terno avisar o óbvio para que ministros, traders e analistas de Wall Street fingissem se surpreender. Olha, qualquer pescador de Bandar Abbas sabe há quarenta anos que afundar um navio em Ormuz não derruba um regime, derruba o preço do pão em Madri, em São Paulo e em Lagos.

O ponto interessante não é o que Araghchi disse, é o que o mercado fez com o que ele disse. Bastou a palavra negociação para o petróleo ceder, bastou um rumor de tensão na semana passada para subir. O barril, que deveria refletir oferta e demanda reais, virou termômetro de humor de chancelaria. Isso não é mercado funcionando, é mercado refém. E refém de quem? De um punhado de governos que, juntos, controlam a torneira física do mundo enquanto bancos centrais controlam a torneira monetária que precifica essa torneira física. Dois monopólios conversando entre si, e o consumidor final pagando a conversa em forma de gasolina, frete, alimento e juro.

Há uma indústria inteira que vive desse equilíbrio precário, e convém olhar para ela antes de engolir o discurso pacifista. Cada ameaça em Ormuz movimenta trilhões em derivativos, infla orçamentos militares no Golfo, justifica pacotes bilionários em Washington, alimenta a propaganda do regime persa para sua plateia interna e legitima sanções que enriquecem intermediários discretos em Dubai, Istambul e Pequim. A paz total seria desastrosa para muita gente bem vestida. Por isso a tensão nunca desaparece, apenas oscila no volume conveniente, alta o suficiente para sustentar o prêmio de risco, baixa o suficiente para não fechar o estreito de verdade. É um teatro com bilheteria garantida, e os figurinos são pagos com dinheiro alheio.

Repare também na linguagem usada pelo iraniano: negociações avançam. Avançam para onde, exatamente? Em qual mesa, sob quais termos, com qual contrapartida? Quando o cidadão comum negocia algo, ele assina contrato, paga e leva o produto. Quando chancelarias negociam, o que se compra e se vende é tempo, e o tempo é pago pelo bolso de quem não foi consultado. O contribuinte americano financia bases no Golfo, o europeu paga energia caríssima, o brasileiro engole diesel a preço de Roterdã, e ninguém jamais foi convidado a opinar sobre o pacote. A democracia, dizem os manuais, é o governo do povo. Em política externa, é o governo apesar do povo.

O que se vê é o alívio momentâneo nas cotações e a manchete tranquilizadora. O que não se vê é a estrutura permanente que torna o mundo dependente da boa vontade de regimes hostis e da boa vontade de bancos centrais que imprimem a moeda na qual esse petróleo é precificado. Enquanto o Ocidente proibiu a si mesmo de explorar suas próprias reservas em nome de metas climáticas redigidas em hotéis suíços, transferiu para Teerã, Riad e Moscou o poder de fato sobre sua economia. Ormuz só é decisivo porque alguém decidiu, em assembleias muito civilizadas, que produzir energia em casa virou pecado. Pecaram contra a aritmética, e agora rezam para que o aiatolá esteja de bom humor.

Resta a frase final, a única honesta em toda essa coreografia: não existe solução militar para Ormuz porque também não existe, há décadas, vontade real de solução nenhuma. O estreito permanece estreito, o medo permanece rentável, e cada declaração diplomática vale mais que mil porta-aviões justamente porque move o que de fato importa, que é o preço. Quem controla a narrativa do barril controla a inflação global sem precisar disparar um tiro. E é por isso que, no fim das contas, o tiro nunca vem.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.