A obra em Inocência caminha mais rápido do que o previsto, e isso por si só já desmente uma das mentiras mais repetidas no rodapé dos jornais econômicos. Megaprojetos de celulose, dessa magnitude, não saem do papel porque algum ministro acordou inspirado em Brasília, saem porque uma empresa privada, no caso chilena, calculou risco, comprometeu bilhões de dólares próprios e decidiu apostar contra a média do desânimo nacional. Quem está plantando eucalipto, contratando engenheiro, pagando empreiteira e aguentando o atraso da licença ambiental é a Arauco, não o Tesouro Nacional. Convém lembrar disso antes que comece a procissão de autoridades cortando fitas.
Olha, o detalhe que ninguém quer sublinhar é que o Mato Grosso do Sul virou o maior polo de celulose do planeta sem que isso fosse fruto de nenhum plano quinquenal, nenhuma secretaria de desenvolvimento, nenhuma genialidade tecnocrática. Virou porque o cerrado tem terra barata, sol generoso, água em volume razoável e, sobretudo, uma janela de relativa paz regulatória que ainda permite ao capital agir antes que o legislador descubra mais um imposto criativo para cobrar. É a velha ordem que ninguém projetou e que funciona apesar dos projetistas, não por causa deles.
Quer dizer, vamos seguir o dinheiro com calma. A Arauco anuncia algo perto de quatro bilhões e meio de dólares de investimento, recurso que entra no país, gira na economia local, contrata mão de obra, paga fornecedor, alimenta município pequeno que antes vivia de boleto do governo federal. Em troca disso, a empresa enfrentará a tributação mais hostil do hemisfério ocidental, a logística ferroviária que parece desenhada por sabotador profissional, e a chance sempre presente de que algum gabinete em Brasília invente, no meio do caminho, uma contribuição compulsória nova para premiar uma clientela política qualquer. Risco privado, lucro privado, mas custo social inflado pela mão pesada do Estado que insiste em cobrar pedágio onde nem construiu a estrada.
Me diz uma coisa, por que essa fábrica está sendo erguida por chilenos e não por brasileiros? A resposta incomoda os patriotas de fachada. Porque por aqui o capital nacional foi sistematicamente espremido entre juros estratosféricos, BNDES seletivo que escolhe vencedor por critério de afinidade ideológica, e uma carga tributária que transforma qualquer projeto de longo prazo em ato de heroísmo financeiro. O empresário brasileiro que tentasse o mesmo sonho seria devorado pelo custo do dinheiro antes mesmo da primeira muda crescer. Sobra o estrangeiro, que vem com financiamento internacional barato e a paciência de quem opera em país sério.
E aí entra o número que os planejadores adoram esconder embaixo do tapete. Quando a fábrica entrar em operação plena, o complexo gerará exportação relevante, divisas que aliviam o câmbio, royalties municipais, ICMS estadual, tudo isso colhido por um Estado que não plantou nem uma árvore. É a velha história da janela invisível, o que se vê é a propaganda oficial sobre geração de empregos, o que não se vê é o conjunto de empresários brasileiros que poderiam estar fazendo o mesmo se não estivessem sufocados, e o conjunto de consumidores que pagarão, na conta de luz, no preço do diesel, no spread bancário, o financiamento do parasitismo institucional que se dependura no projeto.
O recado de Inocência é cristalino para quem tem ouvido para ouvir. Onde o Estado se afasta um milímetro, a riqueza floresce. Onde o Estado se aproxima, a iniciativa morre por asfixia regulatória ou tributária. A megafábrica está adiantada apesar do Brasil oficial, não por causa dele, e essa frase deveria estar gravada na entrada de toda secretaria de desenvolvimento econômico desse país. Quando o cerrado virar potência mundial de celulose, lembrem-se, o protagonista usava sotaque chileno e o figurante de gravata é que vai querer o crédito.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.