A ArcelorMittal divulgou o resultado do primeiro trimestre de 2026 e bateu as estimativas de lucro por ação. Os analistas de banco aplaudiram, o papel reagiu, e os portais econômicos repetiram o mantra de sempre, eficiência, disciplina de custos, recuperação de margens. Ninguém perguntou o óbvio. Quem está pagando essa margem? Porque margem, no setor siderúrgico, não brota do chão como minério. Ela vem de algum lugar, e quase sempre vem do bolso de quem nunca foi consultado sobre nada.
O aço é um dos setores mais protegidos do planeta, e o Brasil é campeão nesse esporte. Tarifas de importação contra o aço chinês, sistemas antidumping acionados a cada vez que o preço internacional cai, cotas, salvaguardas, barreiras técnicas, e uma orquestra inteira de mecanismos regulatórios desenhados para garantir que a indústria local opere num ambiente competitivo apenas no folder institucional. Quando o governo fecha a porta para o concorrente externo, o consumidor doméstico é obrigado a comprar mais caro do produtor doméstico. Isso não é capitalismo. Isso é um arranjo entre Brasília e algumas chaminés, com a conta dividida entre milhões de pessoas que nunca entenderam por que a geladeira, o carro e o vergalhão da obra custam o que custam.
O lucro acima do esperado, portanto, precisa ser lido com a lente correta. Não é só produtividade, não é só hedge cambial bem feito, não é só sinergia operacional. É também, e em parte significativa, o resultado de uma transferência silenciosa de renda que acontece toda vez que um cidadão paga mais caro num produto cuja matéria-prima é artificialmente protegida da concorrência. O que se vê é a manchete do balanço trimestral. O que não se vê é a casa que ficou mais cara, o emprego que não foi gerado na metalúrgica pequena que faliu, o eletrodoméstico que o brasileiro de classe C deixou de comprar porque o aço local cobra ágio de monopólio disfarçado.
Some a isso o festival de financiamentos subsidiados via bancos de fomento, regimes especiais de tributação, créditos presumidos, programas de descarbonização que viram porta dos fundos para repasse de recursos públicos, e o quadro fica mais nítido. A multinacional não compete num mercado livre, ela opera num ecossistema desenhado por décadas de lobby competente em Brasília e em Bruxelas. O lucro do trimestre é tão genuíno quanto o aplauso do plenário a um projeto do governo. Existe, é registrado, mas não diz o que parece dizer.
E o mais irônico é o discurso. A mesma indústria que vive de proteção tarifária se apresenta como vítima da concorrência desleal sempre que o preço internacional desabou. Quando o cenário externo joga a favor, é talento gerencial. Quando joga contra, é dumping chinês e o governo precisa intervir já. Cara o privado leva, coroa o contribuinte paga. Esse heads I win, tails you lose é a essência do capitalismo de compadrio, e funciona porque o cidadão comum não tem tempo, paciência ou ferramenta para auditar uma cadeia produtiva que envolve trinta páginas de regulamento aduaneiro e cinco ministérios.
O resultado do trimestre é bom para o acionista, péssimo para a honestidade do debate econômico. Não porque a empresa tenha feito algo ilegal, ela jogou o jogo que está posto, e jogou bem. O problema é o jogo. Enquanto o noticiário tratar lucro de setor protegido como prova de eficiência de mercado, vai continuar vendendo gato por lebre para um leitor que merecia, no mínimo, saber em qual mesa está sentado e quem está com a mão no bolso dele. Margem alta com porta fechada não é vitória do livre mercado, é fatura do consumidor que ainda não chegou pelo correio.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.