Olha, toda vez que uma Archer-Daniels-Midland abre o livro caixa, analista de banco engole seco e repete o mantra das "margens de esmagamento" como se fosse oráculo de Delfos. Quer dizer, a empresa processa soja, milho, canola, transforma grão em farelo, óleo, etanol, biodiesel, e o spread entre o que paga pelo grão e o que recebe pelo derivado virou o indicador favorito de quem finge que entende o setor. Só que tem um detalhe que as planilhas bonitinhas escondem: nenhum desses números nasce do livre encontro entre quem planta e quem compra. Nasce de canetada em Washington, em Brasília, em Bruxelas e em Pequim.
Me diz uma coisa, o que faz a margem de esmagamento subir ou cair de um trimestre para o outro? Não é a sabedoria do produtor americano nem a astúcia do trader de Chicago. É o mandato de mistura de biodiesel que o governo americano renova, suspende ou amplia conforme o vento eleitoral. É a tarifa que a China impõe ou retira sobre a soja dos Estados Unidos dependendo de quem ganhou a última rodada da guerra comercial. É o subsídio que a União Europeia despeja na agricultura própria enquanto exige certificação de desmatamento de quem está fora. A ADM não é uma empresa, é um intermediário oficial entre quatro ou cinco governos que fingem competir e na prática protegem os mesmos cartéis.
Siga o dinheiro e a coisa fica clara. O contribuinte americano financia, via Renewable Fuel Standard, a obrigação de misturar biodiesel ao diesel comum. Esse mandato cria demanda artificial por óleo de soja. A demanda artificial infla a margem de esmagamento. A margem inflada vira lucro reportado no balanço. O lucro reportado vira bônus para executivo, dividendo para acionista institucional e manchete eufórica no Investing. Quem pagou a conta? O caminhoneiro que abastece mais caro, o consumidor que come ração mais cara repassada na carne, e o sujeito do cerrado brasileiro que vende soja num preço artificialmente distorcido por uma política externa que ele nem sabe que existe.
O mais curioso é o vocabulário que o mercado adota para mascarar essa engenharia. Fala-se em "ciclo", em "fundamentos", em "demanda chinesa", como se fossem fenômenos meteorológicos. Não são. São decisões políticas tomadas em salas fechadas por gente que nunca pisou numa lavoura. Quando o boom acontece, todo mundo é gênio. Quando o bust chega, e ele sempre chega, porque preço artificial não sustenta sozinho, aí ninguém viu nada, ninguém é responsável, e o governo entra com novo pacote para "estabilizar o setor", o que significa transferir mais dinheiro do contribuinte para os mesmos quatro ou cinco gigantes que já dominavam o jogo antes da crise.
O Brasil entra nesse balé como figurante útil. O agronegócio nacional, que poderia ser plenamente competitivo num mercado de fato livre, vive ajoelhado diante das tarifas alheias e dos compromissos ambientais que a Europa inventou para barrar concorrência sem dizer que é protecionismo. A safra recorde brasileira, que deveria ser celebração de produtividade, vira munição para derrubar preço internacional e quebrar produtor pequeno. E quem ganha com isso? A trading multinacional que compra na baixa, estoca, e revende na alta induzida pelo próximo decreto de Washington. Não é livre mercado, é capitalismo de compadrio com sotaque de commodity.
Por isso, quando o balanço da ADM sair e o noticiário começar a especular se as margens vão "impulsionar o desempenho", lembre-se que está assistindo a uma peça de teatro com roteiro escrito por burocratas e atores pagos para fingir que improvisam. O número virá, o analista vai justificar, o acionista vai aplaudir ou vaiar, e ninguém vai perguntar a única coisa que importa: quanto desse lucro foi gerado por valor criado e quanto foi extraído de quem não estava na sala. Mercado livre não precisa de balanço explicado por mandato federal. O que não consegue se sustentar sem subsídio não é negócio, é dependente químico de canetada alheia.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.