Arne Slot, o holandês que herdou o trono de Klopp em Anfield, soltou o verbo numa entrevista coletiva que deveria ter ecoado mais do que ecoou. O sujeito olhou para as estatísticas da Premier League da temporada e percebeu o óbvio que ninguém tinha coragem de dizer em voz alta, que o futebol inglês, aquele que vendia poesia e correria como nenhum outro no planeta, se transformou numa disputa monótona de bola parada. Escanteio ensaiado, falta ensaiada, lateral ensaiado. Falta o jogador parar na hora do hino e já marcar um golzinho de cabeça de escanteio curto com desvio no primeiro pau.

Slot tem razão e a razão dele dói. A Premier League se rendeu ao treinador de bola parada, esses gurus contratados a peso de ouro que chegam aos clubes com laptop, drone e planilha. Trabalham o ataque e a defesa nas situações de bola parada como se o jogo fosse apenas um intervalo entre escanteios. O futebol, aquele de dribles no meio de campo, de jogadas elaboradas de trinta passes, de beleza gratuita, foi reduzido a um espreguiçar de gigantes esperando a bola vir pelo alto. Ora, quando o esporte vira engenharia, perde a alma.

O que Slot está dizendo, sem dizer com todas as letras porque treinador não pode, é que a obsessão pela eficiência matou o improviso. A bola parada é o refúgio do medo, o último suspiro do treinador que não confia nos seus jogadores, que prefere ensaiar cem vezes um escanteio do que deixar o camisa dez inventar. É o futebol do contador, não do artista. E quando o contador toma conta do vestiário, o torcedor bate palmas sem alma e volta pra casa com a sensação de ter assistido a uma reunião de planejamento estratégico com gramado.

E aí vem a segunda bomba da coletiva, Wirtz desfalcado. O alemão que o Liverpool comprou por uma fortuna para ser o cérebro da equipe, fora do jogo. Detalhe que ninguém captou, e se captou fingiu não captar, é que Slot reclama do futebol mecânico no mesmo fôlego em que anuncia a ausência justamente do jogador que foi contratado para ser o antídoto contra esse futebol mecânico. Wirtz é jogador de linha, de toque, de invenção. Sem ele, sobra o quê? Sobra escanteio ensaiado. Sobra a bola parada que o próprio treinador detesta.

A Premier League, que se vendeu ao mundo como a última fronteira do futebol espetáculo, começa a dar os sinais de que virou o mesmo produto pasteurizado que já dominou as outras grandes ligas europeias. Tudo calculado, tudo cronometrado, tudo medido por métricas de expectativa de gol que nenhum torcedor pediu e ninguém entende direito. O jogo bonito ficou preso numa planilha. E quando o treinador do líder é o primeiro a reclamar, desconfia, porque nenhum técnico chuta o próprio balde sem motivo. Slot viu algo que não gostou. E o que ele viu, o torcedor também vê.

O curioso é que o mesmo establishment que aplaude o futebol ensaiado é o que despreza o futebol latino, esse que ainda guarda resíduos de malandragem, de drible, de lambreta, de chapéu. Chamam de antiquado. Mas antiquado é achar que o futebol cabe numa planilha. A bola não sabe estatística. Ela rola pra quem a merece. E a meritocracia do gramado, essa última trincheira da justiça no mundo contemporâneo, não pode ser substituída por ensaio coreografado de escanteio. Slot acertou na mosca. Só falta agora a imprensa inglesa parar de bajular consultor de bola parada e voltar a cobrar futebol de verdade.

Com informações da Gazeta Esportiva. A análise e opinião são do O Algoz.