Gianni Infantino acordou inspirado e resolveu que o grande problema do futebol mundial não é a arbitragem duvidosa, nem o calendário insano, nem os estádios vazios em sedes duvidosas de Copa do Mundo, nada disso. O inimigo, senhoras e senhores, é o jogador que leva a mão à boca antes de falar. O pretexto foi o entrevero entre Prestianni e Vinicius Júnior, e a solução proposta é digna de república de opereta, expulsão direta para quem ousar privar o gramado da leitura labial dos repórteres de plantão. A FIFA, que nunca conseguiu moralizar os seus próprios cartolas, agora quer moralizar a fisionomia alheia.
Vamos ser francos, ta certo? O gesto de tapar a boca é tão antigo quanto o próprio jogo, e existe por um motivo óbvio, o jogador não confia no microfone direcional, no cinegrafista com zoom de drone, no leitor labial contratado pela emissora para transformar resmungo em manchete. O sujeito cobre a boca porque aprendeu, na dureza, que qualquer sílaba vira processo, multa, suspensão, escândalo nas redes. E agora o dono do circo resolve que esse instinto de autopreservação, esse último recurso do atleta contra a vigilância total, merece cartão vermelho. Ora, ora.
O que está em jogo aqui, e poucos percebem, é a transformação definitiva do futebol em reality show judicializado. Não basta a câmera que filma tudo, o VAR que revisa tudo, o microfone que capta tudo, agora é preciso que o rosto do atleta seja propriedade pública durante os noventa minutos. O jogador não tem mais direito a um aparte com o companheiro, a um desabafo com o árbitro, a uma praga baixinha contra o zagueiro que lhe pisou o tornozelo. Tudo passa a ser conteúdo, tudo vira prova, tudo entra no dossiê. O gramado virou panóptico, e Infantino é o arquiteto entusiasmado da torre de vigia.
E repare na hierarquia moral dessa gente, ne? A FIFA é a mesma entidade que entregou Copa para quem pagou mais, que fez vista grossa para décadas de propina, que protegeu presidente condenado por trás de muralhas suíças de advogados caríssimos. Essa mesma FIFA, que não sabe explicar a origem dos seus próprios dólares, quer explicar ao jogador profissional como ele deve posicionar a mão durante uma discussão de cinco segundos. É o cúmulo da inversão, o faxineiro da casa suja dando lição de higiene no vizinho. Seguir a trilha do dinheiro da FIFA dá mais pano pra manga que leitura labial de qualquer centroavante.
O fundo da questão é simples, e incomoda justamente por isso. Toda estrutura de poder que se sente ameaçada tenta, mais cedo ou mais tarde, regulamentar o gesto, o olhar, o silêncio. Não é sobre futebol, nunca foi. É sobre quem tem autoridade para dizer o que pode ser dito e, sobretudo, o que pode ser escondido. O jogador que cobre a boca está exercendo o único pedaço de privacidade que ainda lhe resta num esporte totalmente exposto, e é exatamente essa privacidade que incomoda. O homem comum, o torcedor que paga o ingresso, entende isso melhor que qualquer dirigente de terno italiano. Quem tapa a boca não está escondendo crime, está se defendendo do tribunal permanente.
Se a proposta passar, e a burocracia esportiva adora esse tipo de proposta, estaremos oficialmente num futebol em que o atleta precisa sorrir para a câmera mesmo quando está sangrando. Virou teatro obrigatório, mímica certificada, expressão controlada pela entidade máxima do jogo bonito. E o pior é que vai ter torcedor aplaudindo, vai ter comentarista defendendo, vai ter colunista da lista de sempre dizendo que é pelo bem do esporte. Pelo bem do esporte já se justificou muita coisa feia, sir. Dessa vez, não vamos aplaudir calados.
Com informações da Gazeta Esportiva. A análise e opinião são do O Algoz.