Abril de 2026, e o Brasil cheira a bola de couro e a dívida impagável. O Brasileirão começa com a pompa de sempre, com os estádios cheios de promessa e os balanços contábeis cheios de vergonha. Os clubes históricos, aqueles que construíram a alma do futebol nacional tijolo por tijolo, partida por partida, estão sendo adquiridos por fundos de investimento com a mesma frieza cirúrgica com que se compra um lote industrial em zona de risco. A SAF chegou prometendo gestão, entregou americanização. O torcedor, esse sujeito sofrido que acorda cedo para trabalhar e gasta o dinheiro suado para ver seu clube jogar, agora assiste ao seu time ser gerido por uma planilha de Excel em Miami. Mas não se fala nisso. Não convém. Convém falar de outras coisas.
A Copa do Mundo de 2026 se aproxima com a urgência de um prazo que ninguém quer encarar de frente. Estados Unidos, México, Canadá, três países que não entendem de futebol organizando o maior evento do esporte humano, enquanto o Brasil, que inventou a beleza dentro do campo, entra no torneio sem saber quem escala na lateral direita ou o que quer dizer com a bola. A Seleção está em reconstrução. Palavra bonita para designar uma coisa feia: a ausência de ideia, de identidade, de projeto. Aristóteles ensinou que a excelência, a arete, não nasce do acaso; ela é o resultado de repetição virtuosa, de hábito cultivado, de uma vontade que não cede ao conforto. O futebol brasileiro perdeu o hábito da excelência porque parou de cobrar a excelência. Parou de cobrar porque virou pecado cobrar. Cobrar virou fascismo. Exigir virou violência. E o time vai à Copa como vai um país que esqueceu o que é ganhar.
Nelson Rodrigues, o patrono desta coluna, o maior cronista que o Brasil já produziu em qualquer área, escreveu certa vez que "o complexo de vira-latas é a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo". Pois bem: o complexo de vira-latas não morreu com a Copa de 70, como o mestre esperava. Ele se reinventou. Hoje, o vira-lata não se acanha diante do europeu, mas diante do discurso pronto, da narrativa fabricada, da pressão ideológica que transforma o campo de futebol num palco de encenação política. O jogador que pensa fora do script aprovado pela redação leva a pecha de reacionário. O atleta que tem opinião própria sobre qualquer coisa que não seja abraçar a causa do mês vira alvo. Maurício Souza sabe bem disso. O cancelamento dele foi um recado: dentro do esporte, a liberdade de expressão é permitida só quando a expressão serve ao poder.
E quem deveria defender o esporte como esfera autônoma, livre de tutela ideológica? Os cronistas. Os jornalistas esportivos. A gente que deveria entender que o gol não tem partido, que o campeonato não tem pauta, que a beleza do jogo é exatamente sua indiferença a tudo que não seja o jogo. Mas Juca Kfouri, decano da imprensa esportiva nacional, há décadas transforma cada coluna num editorial do seu partido de estimação. O sujeito tem talento, isso ninguém tira, mas desperdiça cada centímetro de espaço redatorial convertendo o futebol em veículo de militância. A crônica vira panfleto. O panfleto vira rotina. A rotina vira o que todo mundo aceita como normal. E a Globo, que já foi o templo do futebol brasileiro e hoje perde audiência para o streaming com a velocidade de quem perde sangue por uma artéria cortada, ainda insiste no mesmo modelo: narrador mais comentarista mais âncora mais dois convidados, todos eles lendo da mesma cartilha, todos eles muito preocupados com tudo que não é a bola.
Por isso, quando aparece alguém como o Pilhado, o Thiago Asmar, que entra num ambiente onde 78% dos colegas pensam igual e tem a coragem intelectual de pensar diferente, de falar diferente, de recusar o conforto do rebanho, fica evidente o tamanho do vácuo que existia. Não é sobre direita ou esquerda, ora. É sobre diversidade real, aquela que acontece nos neurônios e não nos formulários de departamento de RH. O Pilhado entendeu que jornalismo esportivo sem liberdade é assessoria de imprensa disfarçada. Rica Perrone entendeu antes ainda: largou o sistema, montou a própria estrutura, faz o jornalismo que quer fazer sem pedir licença para patrão nem para comitê editorial. São os únicos que ainda lembram que a crônica esportiva tem uma tradição literária, uma dignidade intelectual que foi construída por Nelson, por Armando Nogueira, por Mário Filho, e que não pode ser liquidada para virar material de campanha.
O Brasileirão começa. Os clubes entram em campo carregando dívidas que não pagam, projetos que não terminam e torcedores que continuam aparecendo mesmo assim, com a fidelidade irracional e comovente de quem ama sem pedir nada em troca. A Copa do Mundo vai acontecer em junho de 2026, e o Brasil vai estar lá, com a chuteira passada e a esperança intacta, porque o brasileiro é geneticamente incapaz de ir a uma Copa sem acreditar que vai ganhar. Pode ser ingenuidade. Pode ser loucura. Pode ser, quem sabe, a única forma de sanidade que nos restou. O campo está pronto. Os jogadores estão escalados. Os cronistas de plantão já prepararam os editoriais, quer o Brasil ganhe ou perca. Mas o futebol, esse sujeito teimoso e glorioso, vai continuar sendo maior que todos eles.
O futebol não precisa ser salvo pelos intelectuais. O futebol precisa ser salvo dos intelectuais.