A Arq anunciou esta semana a nomeação de Shimon Steinmetz como seu novo diretor financeiro, acompanhada da distribuição de prêmios em ações para a alta cúpula. A notícia foi recebida com aquela liturgia previsível dos comunicados ao mercado, palavras como alinhamento, governança e retenção de talentos sendo espalhadas como incenso num templo onde ninguém mais sabe ao certo a quem se reza. Quer dizer, troca-se o piloto da aeronave e, na mesma cerimônia, distribuem-se passagens de primeira classe para a tripulação. O passageiro do fundo, aquele que comprou a ação na bolsa achando que estava investindo num negócio, descobre que pagou também pelo champanhe servido na cabine que ele jamais verá por dentro.

Olha, o stock-based compensation deixou de ser exceção e virou regra cultural no capitalismo gerencial moderno. A racionalização é sempre a mesma, alinhar incentivos entre executivos e acionistas, como se a única forma de fazer um sujeito trabalhar bem fosse transformá-lo silenciosamente em sócio à custa de quem já era sócio. Há uma diferença abissal entre o empreendedor que arrisca seu próprio capital e o executivo profissional que recebe uma fatia do patrimônio alheio como bônus pelo simples ato de aparecer na sala. Um cria valor do zero, o outro extrai valor de uma pilha que ele não construiu. Chamar isso de alinhamento é o tipo de eufemismo que só sobrevive porque a indústria financeira aprendeu, há décadas, a vender diluição como virtude.

Me diz uma coisa, alguém perguntou ao acionista minoritário se ele topava ter sua participação encolhida em nome desse rito? A resposta honesta é que ninguém pergunta porque ninguém precisa perguntar. O arranjo legal foi cuidadosamente construído para que conselhos de administração, povoados pelos mesmos amigos que circulam nas mesmas conferências, aprovem pacotes generosos uns para os outros num jogo de cadeiras que dura décadas. Siga o dinheiro e você verá que ele sai do bolso do investidor pulverizado e entra na conta do executivo profissional, com a bênção contábil de que tudo isso é despesa não-caixa, como se a fatia menor do bolo que sobra para você não fosse um custo real e palpável.

A nomeação do novo CFO em si pode até ser acertada, e não cabe aqui julgar o currículo do senhor Steinmetz, que provavelmente tem méritos próprios. O ponto é outro, é a paisagem inteira em que esses anúncios acontecem, é o ar de normalidade com que se aceita que uma classe gerencial inteira viva da extração silenciosa de patrimônio dos verdadeiros donos do capital. O mercado de ações nasceu como instrumento de financiamento produtivo, lugar onde poupança encontrava empreendimento. Virou, em larga medida, máquina de circulação patrimonial entre quem está dentro do clube. Antes de derrubar a cerca dos antigos mecanismos de remuneração em dinheiro vivo, alguém deveria ter perguntado por que ela estava lá. A cerca existia justamente para deixar visível o custo da gestão.

O que se vê na manchete é o executivo competente sendo recompensado por mérito. O que não se vê é a fatia do seu patrimônio sendo cortada em silêncio, parágrafo por parágrafo, num documento que noventa e cinco por cento dos acionistas jamais lerá. O que não se vê é o incentivo perverso de um CFO cuja remuneração depende mais do preço da ação no curto prazo do que da saúde do negócio na próxima década. O que não se vê é que esse arranjo, replicado em milhares de companhias, ajuda a explicar por que tantas decisões corporativas hoje parecem desenhadas para maquiar trimestres em vez de construir empresas. Uma civilização que confunde extração com criação está se enganando sobre o próprio chão em que pisa.

No fim, o anúncio da Arq é apenas mais um capítulo de uma história longa e repetitiva, em que o ritual da boa governança serve de cortina para a redistribuição lenta e legalizada do patrimônio de quem confiou para quem administra. Aplaudir essas notícias como se fossem novidade é não ter prestado atenção em nada do que aconteceu nas últimas três décadas. O verdadeiro alinhamento de incentivos não vem de presentear executivos com pedaços da empresa alheia, vem de exigir que coloquem o próprio dinheiro em jogo, como faz qualquer empreendedor de verdade que ainda não esqueceu o que significa risco. Enquanto isso não muda, o acionista comum continuará financiando, sem saber, o champanhe servido em cabines onde ele jamais será convidado a sentar.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.