A arrecadação federal subiu 8,25% em termos reais em agosto, puxada pelo setor de petróleo, e a manchete vem embrulhada como se fosse motivo de aplauso. Mas alguém precisa fazer a pergunta que os economistas de banco fingem não ouvir: de onde vem esse dinheiro? Ele não brota do chão nem cai do céu. Cada real que entra no cofre da União saiu, antes, do bolso de alguém, seja diretamente via imposto de renda, seja indiretamente via preço embutido no combustível, no supermercado, na conta de luz. Comemorar arrecadação recorde é o equivalente moral a comemorar que o assaltante voltou mais eficiente da última rodada.
O detalhe do petróleo é particularmente saboroso para quem gosta de ironia amarga. O governo tributa pesado a exploração e a produção, tributa a refinaria, tributa a distribuidora, tributa o posto, e no fim tributa o consumidor no bombeiro. Depois anuncia, com cara séria, que a "alta expressiva" da receita se deu "com ajuda do setor de petróleo", como se o setor tivesse feito uma doação espontânea. Não fez. Foi espremido. E quem paga a conta dessa espremedura, no final da cadeia, é o motorista de aplicativo, o caminhoneiro, a dona de casa que viu o botijão subir e o feijão junto. O petróleo caro não é fatalidade geológica, é opção fiscal.
Vale olhar para o que não aparece na foto oficial. Quando o Estado arrecada mais, alguém está investindo menos, contratando menos, ampliando menos. Cada centavo que entra na máquina pública é um centavo que não vira máquina nova na fábrica, salário na padaria, capital de giro no comércio de bairro. A imprensa mostra o cheque que entrou; ninguém mostra a expansão que não aconteceu, o emprego que não foi criado, a empresa que fechou porque a carga tributária virou insuportável. É o clássico truque do prestidigitador: olhem para a moeda na mão direita, para que ninguém repare no que a mão esquerda está fazendo por baixo do pano.
E há a parte hilária, se não fosse trágica. Governo que arrecada mais nunca, jamais, em hipótese alguma, devolve o excedente ao contribuinte. O excedente vira gasto novo, cargo novo, programa novo, benefício novo para a clientela política de plantão. A receita cresce em progressão geométrica; o serviço público cresce em progressão de piada. Você paga como sueco e recebe como haitiano, e ainda tem que agradecer quando o boletim mensal do Fisco vem sorrindo para as câmeras. A conta não fecha, mas a festa continua, porque quem pagou a entrada não é quem está na pista de dança.
O mais perverso é o vocabulário. Chamam de "desempenho" o que é confisco. Chamam de "esforço arrecadatório" o que é aperto no pescoço do produtor. Chamam de "recuperação da receita" o que é, na prática, transferência acelerada de renda do setor produtivo para o setor parasitário. A linguagem da tecnocracia foi desenhada precisamente para anestesiar o cidadão, para que ele não perceba que a "boa notícia" da capa é a má notícia do seu holerite. Enquanto o brasileiro médio comemora ter conseguido pagar as contas do mês, o governo comemora ter conseguido tirar mais dele. As duas comemorações são incompatíveis, e uma delas é mentira.
Alta real de arrecadação em país estagnado, com produtividade patinando e renda média espremida, não é sinal de saúde econômica. É sinal de que o parasita aprendeu a extrair mais do hospedeiro. E hospedeiro que aplaude o próprio empobrecimento merece a fatura que vem chegando, cada vez maior, cada vez mais rápido, cada vez com menos disfarce.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.