Há um tipo de erro intelectual que não aparece nos balanços nem nos boletins de inflação, mas cujo custo se mede em impérios destruídos e populações empobrecidas. Não é o erro do político corrupto que rouba abertamente, nem o do demagogo que promete o impossível. É o erro do acadêmico respeitável, de cátedra ocupada e barba bem-feita, que constrói um sistema teórico elegante cujo único defeito é ser inteiramente falso. A Escola Histórica Alemã de Economia Política foi isso: um monumento ao rigor aparente a serviço da subversão total da ciência econômica.

O projeto era simples e devastador. Em vez de aceitar que a ação humana obedece a princípios lógicos universais, que o valor é subjetivo, que a intervenção gera distorção, que o crédito artificial produz ciclos de expansão e colapso, esses pensadores decidiram que a economia é fenômeno histórico. Que cada nação, cada época, cada conjunto de circunstâncias exige suas próprias "leis". Que não existe teoria universal, apenas narrativa específica. Parece modestia intelectual. Na prática, é a abolição da ciência econômica como tal, substituída por uma coleção infinita de casos particulares que qualquer burocrata pode invocar para justificar qualquer política. Quando você mata a lei universal, você entroniza a vontade do governante.

O resultado histórico não demorou. Se não existem leis econômicas, não existe limite teórico para o que o Estado pode fazer. Se cada momento histórico justifica suas próprias regras, o planejador central sempre encontra argumentação pronta para a próxima intervenção. A Alemanha do final do século XIX, berço e vitrine desta escola, foi também o laboratório do Estado de bem-estar na sua forma moderna, do protecionismo industrial agressivo, da fusão entre capital e burocracia que se chamou, com nomenclaturas variadas, de capitalismo de Estado, corporativismo e, nas versões mais honestas sobre o que realmente eram, de coisa pior. A linhagem intelectual vai direto do historicismo acadêmico ao estatismo prático, sem nenhuma quebra de continuidade. Não é acidente, é consequência.

O que torna essa herança particularmente venenosa é que ela sobreviveu ao colapso dos regimes que mais abertamente a adotaram. Hoje, qualquer governo que decide controlar preços, subsidiar setores "estratégicos", manipular a moeda para "aquecer a economia" ou criar programas industriais com dinheiro confiscado dos contribuintes está operando, consciente ou não, dentro do mesmo arcabouço mental. A ideia de que o mercado é um fenômeno histórico que o Estado pode e deve moldar conforme as necessidades do momento é o pressuposto invisível de quase toda a política econômica contemporânea. O relativismo histórico-econômico se tornou o ar que o mainstream respira sem perceber que está respirando. A escola está derrotada no papel e vitoriosa nos fatos.

Quer dizer, o que está em jogo não é uma disputa metodológica entre economistas de diferentes épocas. É a pergunta fundamental sobre se existem leis que governam a ação humana no campo econômico, leis tão reais quanto a gravidade, operando independentemente de qualquer vontade política, e que toda tentativa de contrariá-las produz consequências previsíveis e inevitáveis. A resposta afirmativa a essa pergunta é o que separa a economia como ciência da economia como retórica a serviço do poder. E é exatamente essa distinção que a Escola Histórica Alemã fez questão de apagar. Um governo que não precisa obedecer a leis econômicas é um governo sem restrições reais. Um povo que não entende as leis econômicas é um povo que não sabe quando está sendo roubado. O professor que destruiu aquela distinção fez mais pelo autoritarismo que qualquer general.

O legado intelectual que precisamos desenterrar e reafirmar é o oposto disso. Existe uma lógica da ação humana que precede qualquer contexto histórico. O valor nasce na mente de quem escolhe, não no decreto de quem governa. A moeda corrompida corrompe o cálculo econômico de todos. O planejador central não possui o conhecimento que está distribuído entre milhões de pessoas fazendo escolhas livres em tempo real. Essas proposições não são "liberalismo", não são "ideologia", não são posição política. São verdades que se verificam toda vez que alguém as ignora, verificadas no sangue e na miséria de populações inteiras que tiveram o azar de viver sob governantes que acharam que podiam suspendê-las por decreto. A Escola Histórica Alemã não foi apenas um erro acadêmico, foi o manual intelectual do século mais sangrento da história humana.

Com informações do Mises Brasil. A análise e opinião são de O Algoz.