Existe uma certa poesia cruel em ver o mercado resolver problemas que o Estado criou, lucrar com soluções que nenhum comitê aprovou e gerar riqueza em setores que nenhum modelo econométrico havia indicado. A última edição desta história começa numa farmácia e termina numa provadora de roupa. A Bernstein, firma de análise de ações com menos romantismo que eu e mais planilha, calculou que os medicamentos da classe GLP-1, aqueles injetáveis que estão deixando milhões de americanos significativamente mais magros, devem injetar até treze bilhões de dólares anuais no varejo de vestuário. Ninguém convocou uma reunião para planejar isso. Ninguém assinou uma portaria. Aconteceu.
A lógica é simples, como são quase todas as lógicas que os intelectuais insistem em complicar: pessoas que emagrecem precisam de roupas novas. Calças que sobravam passam a sobrar mais. Blusas que apertavam ficam largas. A nova silhueta exige novo guarda-roupa, e o varejo de moda, setor que vivia gemendo sobre o apocalipse do e-commerce e o colapso das shoppings, se vê de repente com uma demanda orgânica que não pediu emprestada ao subsídio de ninguém. O remédio não foi desenvolvido para salvar a indústria têxtil. Quem o desenvolveu queria tratar diabetes e obesidade mórbida. O resultado colateral, em benefícios distribuídos por toda a cadeia econômica, é exatamente o tipo de coisa que nenhum planejador central teria previsto porque nenhum planejador central consegue prever. O preço que coordena, a informação que se dispersa, o ajuste que acontece sem que alguém mande acontecer.
Mas sigamos o dinheiro, porque o dinheiro sempre conta uma história mais interessante do que o comunicado de imprensa. Quem perde neste rearranjo? A indústria alimentícia processada, cujos produtos ultrapalatáveis de baixo custo e alta margem dependiam de consumidores que comiam compulsivamente. O modelo de negócio de boa parte do setor de fast food foi construído sobre o apetite irresistível, e o GLP-1 suprime exatamente isso. Restaurantes já registram queda no ticket médio em regiões com alta adesão aos medicamentos. Fabricantes de bebidas açucaradas estão revisando projeções. Aqui está o que ninguém quer dizer em voz alta: boa parte da epidemia de obesidade que este remédio agora combate foi fertilizada por décadas de subsídios agrícolas que tornaram o milho processado e a soja hidrogenada mais baratos do que comida de verdade. O Estado criou o problema. O mercado farmacêutico vendeu a solução. E agora o varejo de moda lucra com o resultado. Ninguém planejou nada. Tudo funcionou.
Há, claro, os que torcem o nariz. Os remédios são caros, dizem. Inacessíveis para a maioria, dizem. O acesso é desigual, dizem. E isso é verdade, por enquanto, como foi verdade para todo medicamento inovador desde a penicilina até o antirretroviral para HIV. O caminho da inacessibilidade para a democratização se chama tempo, concorrência e escala de produção, não decreto presidencial e tabelamento de preço. Qualquer governo que tentar controlar o preço dos GLP-1 no atacado vai simplesmente garantir que a fila de espera substitua o preço como mecanismo de racionamento, com a diferença de que o preço pelo menos é honesto sobre a escassez. A fila mente: finge que todo mundo tem acesso quando na verdade o que existe é todo mundo esperando. O Brasil, aliás, já viu este filme. Não termina bem.
O que a história dos GLP-1 e do varejo de roupa revela, para quem tem olhos além do ciclo de notícias de quarenta e oito horas, é o mecanismo fundamental da riqueza: inovação em um setor cria valor em setores que pareciam não ter nenhuma relação. A estrada de ferro não criou apenas transporte, criou cidades, destruiu carrocerias, inventou o turismo moderno e reformulou a agricultura. A internet não criou apenas comunicação, criou logística, destruiu a mídia impressa, reinventou o varejo e gerou o maior mercado de entretenimento da história. O GLP-1 não vai criar apenas corpos mais magros. Vai remodelar o setor de saúde, o de alimentação, o de vestuário, o de móveis, o de aviação, o de equipamentos médicos. Cada setor vai ganhar ou perder de acordo com sua capacidade de se adaptar, não de acordo com quem conseguiu mais lobby em Brasília. E os treze bilhões do varejo são apenas o que a Bernstein conseguiu medir. O que não se vê ainda nem começou a aparecer nas planilhas.
O mercado não pediu permissão para criar treze bilhões de dólares em riqueza nova. Nunca pede. É a única instituição humana que gera sem ter que pedir licença, que coordena sem ter que mandar, que distribui sem ter que confiscar primeiro. A graça estranha é que isso ainda surpreende alguém.
Com informações da CNBC. A análise e opinião são do O Algoz.