O anúncio veio embrulhado naquele papel de presente típico do Vale do Silício, cheio de palavras simpáticas como "experiência", "revamp" e "conversacional", mas o conteúdo da caixa é menos festivo do que parece. A gigante de Mountain View resolveu enfiar um agente de inteligência artificial entre o usuário e o catálogo do YouTube, de modo que, em vez de digitar o que se procura e receber uma lista de vídeos, o sujeito passa a conversar com uma entidade algorítmica que filtra, resume e recomenda o que ela julga relevante. Some-se a isso o tal Gemini Omni aplicado aos Shorts, e está montado o aparato.
Convém lembrar uma coisa elementar que o marketing tecnológico faz questão de esconder. Toda camada de mediação entre o homem e a informação é, por natureza, uma camada de poder. Quando a biblioteca tinha bibliotecário, o bibliotecário decidia o que ficava na estante de cima e o que ia para o porão. A diferença é que o bibliotecário podia ser questionado, demitido, processado. O modelo de linguagem que agora se senta entre o brasileiro e o vídeo que ele quer assistir não tem rosto, não tem endereço, não presta contas e foi treinado com critérios que ninguém fora de um prédio em Mountain View jamais leu.
Há uma ingenuidade quase comovente em achar que isso é apenas conveniência. A busca tradicional, com todos os seus defeitos, ainda devolvia ao usuário a soberania sobre a escolha final, pois apresentava opções e cabia ao sujeito clicar. A busca conversacional inverte a equação: a máquina sintetiza, resume, conclui e entrega uma resposta pronta, e o usuário, agradecido pela poupança de três segundos, abdica do exercício de comparar, duvidar e escolher. É o velho truque do mordomo que se oferece para abrir suas cartas, ler o conteúdo e contar para você apenas o que importa. Funciona até o dia em que o mordomo decide que certas cartas não precisam ser lidas.
Note bem a coincidência cronológica. A mesma empresa que ao longo da pandemia removeu vídeos de médicos com diploma genuíno, demonetizou canais inteiros por discordarem do consenso sanitário do momento e bloqueou entrevistas com cientistas heterodoxos, agora propõe que o caminho até qualquer vídeo passe obrigatoriamente por um agente que ela própria treina, calibra e ajusta. Não é teoria da conspiração, é simples leitura do organograma. Quem controla o filtro controla o que existe. O resto é detalhe técnico.
O Shorts merece capítulo à parte. Aquela sequência infinita de vídeos verticais de quinze segundos, projetada com o rigor científico de uma máquina caça níqueis de Las Vegas, agora ganha esteróide algorítmico. O Gemini Omni não está ali para servir o espectador, está ali para otimizar o tempo de retenção, que é o eufemismo empresarial para "tempo em que conseguimos manter o cérebro humano refém da dopamina". Cada segundo a mais é receita publicitária, cada vídeo viciante é métrica trimestral. A inteligência artificial não foi colocada para enriquecer o conteúdo, foi colocada para enriquecer o anunciante.
O Brasil, como sempre, recebe a novidade com aquele entusiasmo provinciano de quem nunca viu vitrine maior. Vai-se aplaudir o gadget, escrever-se matérias elogiosas, e poucos perguntarão a coisa óbvia, a saber, quem decide o que o agente conversacional considera verdade, quem treina os filtros, quem assina os termos de uso que ninguém lê. A resposta é desconfortável, mas é a mesma de sempre. Uma corporação privada com viés ideológico declarado e histórico documentado de censura está prestes a se tornar o intermediário obrigatório entre o cidadão e o maior repositório de vídeo da civilização. Chamar isso de inovação é generosidade que não cabe a quem ainda pensa por conta própria.
Com informações da TechCrunch. A análise e opinião são do O Algoz.