A ASM International, aquela holandesa que quase ninguém sabe pronunciar direito, entregou números do primeiro trimestre de 2026 que fizeram a ação saltar na bolsa de Amsterdã e encher de euforia os analistas que semana passada estavam enterrando a indústria de semicondutores. Receita acima do esperado, margens gordas, carteira de pedidos reforçada, guidance otimista. O mercado celebra como se fosse surpresa, mas surpresa mesmo é a cegueira seletiva de quem finge não entender de onde vem tanto dinheiro.
Olha, a ASM vende equipamento de deposição atômica, aquela tecnologia obscura de colocar camadas microscópicas de material sobre bolachas de silício. Parece coisa de laboratório de universidade, mas é o que separa um chip de ponta de um tijolo de cerâmica. Sem essas máquinas, a TSMC não produz, a Samsung não produz, a Intel não produz, e toda a retórica bombástica sobre "reindustrializar a América" ou "soberania digital europeia" vira pó. É o velho princípio do conhecimento disperso em ação, a prosperidade inteira de uma civilização dependendo de um punhado de engenheiros holandeses que ninguém votou para escolher e ninguém vai escolher nunca.
E é aqui que a piada fica boa. Washington gastou bilhões do contribuinte americano no tal CHIPS Act, Bruxelas torrou outros tantos no European Chips Act, Pequim despeja fortunas em fundos de investimento estatais, Brasília sonha com seu próprio parquinho de semicondutores subsidiado. Resultado prático? A ASM fatura mais, a ASML fatura mais, a Applied Materials fatura mais, e o contribuinte de todos esses países paga a conta de uma festa que quem estava mesmo convidado era o acionista europeu que nunca viu um formulário de imposto gringo na vida. Siga o dinheiro e você vai rir, ou chorar, depende do humor do dia.
Quer dizer, o que essas empresas provam a cada balanço trimestral é que ninguém planejou a cadeia global de semicondutores. Ela emergiu. Engenheiro holandês resolveu um problema que engenheiro japonês havia parcialmente resolvido usando uma técnica que um químico americano descobriu décadas atrás misturando compostos que russos teorizaram no século passado. Nenhum ministério desenhou isso, nenhum comitê aprovou, nenhum presidente cortou fita. Foi propriedade privada, contrato voluntário e busca implacável por lucro operando num sistema onde os preços ainda conseguem sinalizar alguma coisa apesar da interferência crescente.
E aí vem o político brasileiro, de terno caro e planilha rasa, anunciar que vamos ter semicondutor nacional com subsídio do BNDES e programa federal. É a velha janela quebrada disfarçada de visão estratégica, tira-se dinheiro da padaria, da oficina, do agricultor, do programador autônomo, e entrega-se para um consórcio com sobrenome conhecido montar linha de produção que vai chegar dez anos atrasada numa tecnologia que já estará obsoleta. O que se vê é a fábrica inaugurada com foto. O que não se vê são as mil empresas que não nasceram porque o capital foi desviado, os empregos que não surgiram, a inovação que ficou no papel porque o imposto comeu a margem.
A lição da ASM é simples e por isso mesmo invisível para quem vive de complicar o óbvio. Riqueza real vem de gente competente resolvendo problema difícil sob disciplina do prejuízo e sedução do lucro, num ambiente onde a propriedade é respeitada e o contrato vale alguma coisa. Tudo o que foge disso é teatro caro bancado por quem não foi consultado. Enquanto o Brasil discute subsídio, a Holanda fatura, e o mundo inteiro continua dependendo do lugar onde as instituições ainda funcionam minimamente. Não é sorte, é consequência.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.