Na próxima segunda-feira, um cascalho espacial batizado de 2026 JH2, com o porte modesto de dois ônibus urbanos, vai passar a cerca de 24% da distância média entre a Terra e a Lua. Em termos astronômicos, é o equivalente a um motoboy cortando a sua frente no semáforo. A imprensa, fiel ao seu instinto de manchete, decidiu chamar isso de raspão. Raspão é o que o leitor leva no contracheque todo dia 5, mas esse tipo de colisão não vende clique nem rende fotinha bonita da NASA.
Olha, a fascinação coletiva com asteroides tem algo de patético e algo de revelador. Patético porque a probabilidade de um objeto desse porte causar dano relevante é menor que a chance de o Banco Central acertar a meta de inflação dois anos seguidos. Revelador porque escancara a preferência humana pela catástrofe espetacular sobre a catástrofe lenta. O meteoro que pode cair é notícia; o meteoro fiscal que já caiu, está caindo e vai continuar caindo, esse virou paisagem, mobília, parte do clima. Ninguém aponta pro céu pra ver a curva da dívida pública, e olha que ela cresce mais rápido que qualquer trajetória orbital.
Me diz uma coisa, por que ninguém se assusta com o que de fato destrói patrimônio? Um asteroide tem a decência de ser visível, calculável, previsível com semanas de antecedência. O imposto novo, a regulação enfiada na calada, a emissão monetária travestida de programa social, esses ninguém vê a olho nu. Chegam pela porta dos fundos, vestidos de boa intenção, abraçando o cidadão como tio bêbado em festa de família. Quando o sujeito percebe, já perdeu metade do salário em tributo embutido e a outra metade em inflação que o governo jura que é culpa do supermercado.
Quer dizer, a indústria do medo cósmico é um achado para quem governa. Enquanto o noticiário discute se a pedrinha vai bater ou não vai bater, ninguém pergunta quem assinou o último decreto, quem fechou qual contrato com qual empreiteira, qual subsídio acabou de ser renovado em silêncio. O espetáculo do céu serve perfeitamente ao palco da terra. Pão e circo funcionavam com gladiadores; hoje funcionam com simulações em 3D de impacto na crosta terrestre. A fórmula é a mesma, só mudou o cenógrafo.
E há uma ironia particularmente saborosa no fato de que o mesmo aparato estatal que pede mais verba para monitorar rochas a milhões de quilômetros é incapaz de monitorar o próprio caixa. Calcula trajetória de asteroide com precisão milimétrica, mas erra a previsão de arrecadação por trilhões. Sabe a velocidade de um corpo celeste no vácuo, mas finge não saber que imprimir moeda gera aumento de preço. A ciência é seletiva, e a seleção sempre favorece o orçamento de quem está no comando do telescópio.
Que o 2026 JH2 passe em paz, faça sua mesura cósmica e siga seu caminho. O verdadeiro perigo está aqui embaixo, em terno e gravata, despachando dos gabinetes, e esse não passa de raspão. Esse acerta em cheio, todo mês, e ainda emite recibo.
Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.