A notícia chega com aquela seriedade institucional que pretende intimidar: a Astronics Corporation recebeu um pedido de US$ 44,7 milhões do Exército dos Estados Unidos. Ponto. Como se fosse a coisa mais natural do mundo um governo retirar quase cinquenta milhões de dólares da economia produtiva e transferir, num passe de caneta, para uma empresa listada em bolsa. O leitor desavisado lê o título, faz que sim com a cabeça e segue para a próxima manchete. O leitor atento pergunta: que dinheiro é esse, quem decidiu que ele iria para lá, e quanto custou para o sujeito que acorda às cinco da manhã e paga imposto sem nunca ter sido consultado sobre nada disso.

O complexo industrial-militar americano é, há décadas, a maior máquina de transferência de renda da história moderna. Funciona assim: o governo arrecada via tributação ou, quando a tributação não dá conta, via expansão monetária, que é um imposto disfarçado e regressivo, daqueles que comem o poder de compra do trabalhador antes mesmo de ele perceber. Esse dinheiro entra no orçamento militar, sai como contrato para fornecedores privados, e fornece dividendos a investidores institucionais que, curiosamente, são os mesmos que financiam campanhas eleitorais dos congressistas que aprovam o orçamento militar. Coincidência fascinante. Pura sinergia republicana, como diriam os manuais cívicos.

O que se vê é o emprego gerado em uma fábrica de Nova York, é o componente eletrônico embarcado em algum sistema militar, é a manchete patriótica sobre a defesa nacional. O que não se vê, e o que ninguém se dá ao trabalho de calcular, é o que aquele mesmo dinheiro teria produzido se tivesse ficado nas mãos de quem o ganhou. Quantas pequenas empresas não foram abertas, quantos empregos privados não foram criados, quantos investimentos produtivos foram sufocados para que a Astronics tivesse seu trimestre azul. A economia real é sempre o caminho não percorrido, e o contribuinte é o pedestre que nunca chega ao destino porque o ônibus do Pentágono passou por cima dele.

Há ainda o detalhe desconfortável de que contratos militares operam em regime de competição limitada, com margens que fariam corar qualquer empresário que precisa enfrentar o mercado de verdade. Quando a clientela é o Estado, o preço não é definido pela oferta e pela demanda, é negociado em salas fechadas por gente que não está gastando o próprio dinheiro. Esse é o segredo sujo do capitalismo de compadrio que se vende como livre iniciativa: a empresa privatiza o lucro, socializa o risco, e ainda recebe medalhas por servir à pátria. A pátria, aqui, é o nome de fantasia da burocracia que decide quem ganha e quem perde.

E note a engenharia retórica da própria notícia. Não há contexto, não há discussão sobre alocação eficiente, não há sequer a pergunta básica sobre se aquilo precisava mesmo ser comprado. O Exército comprou, a empresa vendeu, o jornal noticiou, o leitor consumiu. Toda a cadeia funciona pressupondo que a decisão estatal é, por definição, racional e necessária. Quando se aceita esse pressuposto sem questionamento, qualquer absurdo vira política pública e qualquer transferência vira investimento estratégico. É assim que impérios financeiros são construídos sobre cadáveres de orçamentos domésticos.

No fim, a história é sempre a mesma e tem milhares de anos. Há uma elite que se aproveita da capacidade do Estado de extrair recursos da população e direcioná-los para si própria, embrulhada em narrativas de segurança, progresso e interesse nacional. Muda o nome da empresa, muda o número do contrato, muda a bandeira na parede. A mecânica é idêntica desde que algum chefe tribal descobriu que mandar nos outros era mais lucrativo do que produzir. A Astronics fatura, o congressista sorri, e o cidadão paga. Sempre paga.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.