A Astronova, fabricante de impressoras especializadas listada na Nasdaq, comunicou ao mercado que sua assembleia anual de acionistas acontecerá no dia 20 de julho de 2026. O fato, em si, é trivial; companhias abertas são obrigadas por lei a realizar essas reuniões, e a data específica importa menos do que o calendário fiscal de Wall Street. Mas o trivial revela mais do que o espetacular, e este anúncio rotineiro escancara algo que poucos colunistas de mercado têm coragem de dizer: a assembleia anual moderna, na esmagadora maioria das companhias listadas, é um ritual esvaziado, uma encenação jurídica que finge ser democracia corporativa quando há muito virou homologação de decisões já tomadas em salas fechadas por meia dúzia de fundos.

Olha, há um motivo pelo qual ninguém comparece a essas reuniões além dos próprios executivos, dos advogados pagos por hora e de um ou outro acionista folclórico que vai lá fazer pergunta sobre o cafezinho. O verdadeiro poder de voto já está terceirizado para um punhado de gestoras de índice que dominam o capital pulverizado de praticamente toda companhia americana relevante. Quando essas senhoras do dinheiro alheio decidem como votar, decidem em bloco, baseadas em relatórios produzidos por duas ou três consultorias de governança que ninguém elegeu, ninguém fiscaliza e ninguém pode demitir. O acionista pessoa física, aquele camarada que comprou cem ações achando que tinha voz, descobre na prática que sua voz vale exatamente o que vale o sussurro de um pinguim em meio à manada.

Quer dizer, isto não é defeito da Astronova especificamente, é estrutura. A fábrica de impressoras está apenas cumprindo o roteiro que a regulação federal americana impõe, e o roteiro impõe assembleia porque alguém, em algum momento, achou que carimbar o ato de votação garantiria que os donos do capital controlassem seus gestores. Quem desenhou esse arranjo não previu que o capital se concentraria de tal forma em fundos passivos que o controle voltaria, por vias tortas, para uma oligarquia financeira muito menos democrática que o capitalismo concorrencial original. A cerca foi erguida para uma finalidade, e quando os tempos mudaram, ninguém percebeu que a cerca agora cercava o gado errado.

E aqui mora a ironia que merece destaque. Toda a parafernália de compliance, governança ESG, relatórios de sustentabilidade, comitês de diversidade e demais penduricalhos que essas assembleias homologam custam fortunas que saem, no fim do dia, do lucro do acionista. Custos que se traduzem em produtos mais caros para o consumidor, salários menores para o trabalhador e dividendos espremidos para quem investiu o próprio suor. Tudo em nome de princípios que ninguém votou, definidos por entidades que ninguém escolheu, fiscalizados por burocratas que ninguém controla. O que se vê é uma reunião marcada para julho; o que não se vê é o custo bilionário desse teatro corporativo espalhado por dez mil companhias listadas.

A pergunta honesta que um colunista deveria fazer não é "quando será a assembleia da Astronova", mas "por que ainda fingimos que isso é assembleia". A resposta está no fato de que admitir publicamente o esvaziamento do voto acionário obrigaria a repensar todo o edifício regulatório que se construiu sobre essa ficção, e ninguém com poder na engrenagem quer essa conversa. Melhor manter o ritual, vestir o terno, pagar o auditor, contratar o consultor de governança e seguir o calendário. O capitalismo de verdade morreu há décadas; o que sobrou foi um cadáver bem maquiado que faz reunião anual para fingir que respira.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.