Sete corpos no chão do Cauca, mais um capítulo da sangria que a Colômbia teima em chamar de "processo de paz". A explosão dessa semana não é acidente, não é tragédia inesperada, não é fatalidade meteorológica. É a fatura, com juros compostos, de uma escolha política deliberada que durou décadas: a de tratar grupos armados ilegais como interlocutores legítimos, sentá-los à mesa, dar-lhes anistia, cadeira no parlamento, salário do contribuinte, e fingir surpresa quando os dissidentes continuam fazendo o que sempre fizeram, ou seja, matando.
Olha, existe uma confusão fundamental no debate público latino-americano que precisa ser dita sem rodeios. O Estado moderno se justifica por uma única função inegociável, que é o monopólio legítimo da força dentro do território. Tudo o mais é negociável, discutível, reformável. Isto não. No momento em que o governo aceita dividir esse monopólio com facções narcoterroristas, em nome de uma suposta "paz total" que vendem em embalagem progressista, ele deixa de ser Estado e vira síndico de condomínio violento. Foi exatamente o que a Colômbia fez, e o boleto chega agora, parcelado em corpos.
Quer dizer, vamos seguir o dinheiro, que é onde a verdade costuma se esconder. Quem ganha com o atual desenho colombiano? As facções dissidentes que continuam armadas, lucrando com cocaína, mineração ilegal e extorsão, enquanto o governo central destina orçamento bilionário para "reincorporação" de ex-combatentes que reincorporaram-se ao próprio crime. Os burocratas internacionais que vivem de gerenciar o conflito permanente, com seus relatórios, conferências e ONGs financiadas pelo contribuinte europeu. Os políticos locais que usam a narrativa da pacificação para justificar centralização, gastos e poder. Quem perde? O camponês de Cauca, o comerciante de Nariño, a criança de Caquetá. Sempre os mesmos.
Existe uma sabedoria antiga, daquelas que o intelectual urbano sofisticado adora ridicularizar, que diz o seguinte: antes de derrubar uma cerca, descubra por que ela foi construída. A Colômbia derrubou a cerca da intolerância absoluta com grupos armados em nome de uma engenharia social ambiciosa, que prometia transformar guerrilheiro em deputado, traficante em líder comunitário, sequestrador em conciliador. Funcionou? A resposta está nos jornais de hoje, escrita em sangue. O que se vê é o discurso de paz, a foto na ONU, o prêmio internacional. O que não se vê é o lavrador que não voltou para casa.
E aqui mora o ensinamento que o Brasil deveria estar anotando com letra de forma, porque a tentação de importar o modelo está rondando há tempos. Toda vez que se ouve falar em "pacificação", "diálogo com facções", "redução de danos no enfrentamento", o que está sendo proposto na prática é a terceirização da soberania para o crime organizado. Comunidade tomada por milícia não se "pacifica" com mesa redonda; se retoma com lei, ordem e a aplicação intransigente do direito. O resto é literatura para acalentar a consciência de quem mora em bairro seguro.
A bomba do Cauca não é notícia internacional para consumo distraído entre o café e a próxima reunião. É espelho. Mostra o que acontece quando uma nação confunde misericórdia com abdicação, quando troca princípio por aplauso, quando aceita dividir com bandido aquilo que não é divisível. Paz não se negocia com quem tem dedo no gatilho; se conquista quando o gatilho é arrancado da mão dele. Tudo o mais é encenação, e a plateia paga ingresso com a própria vida.
Com informações da Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.