Dezessete policiais mortos numa escola militar no nordeste da Nigéria, abatidos por insurgentes que professam abertamente sua motivação religiosa, e a manchete da agência financeira global resume o episódio com a delicadeza de quem fala de um fenômeno meteorológico. "Ataque islâmico", diz o título, como quem diz "frente fria avança". Dezoito anos de guerra, centenas de milhares de mortos, milhões de deslocados, igrejas queimadas, meninas sequestradas em escala industrial, e o tratamento editorial continua sendo o de um problema regional, quase folclórico, sem causa identificável e sem solução possível.

Olha, quando uma insurgência completa quase duas décadas matando gente em série e o Estado responde com o mesmo manual fracassado de sempre, alguma coisa está errada no diagnóstico. A Nigéria gasta bilhões de dólares por ano em segurança pública, recebe assessoria militar de potências ocidentais, importa equipamento, treina oficiais no exterior, e o resultado é que policiais são abatidos dentro de uma escola militar, justamente o lugar que deveria ser o mais protegido do país. Quando o monopólio estatal da violência falha de modo tão sistemático e tão prolongado, a questão não é mais técnica, é existencial: esse Estado serve para quê, exatamente?

E aí entra a parte que ninguém quer discutir. Siga o dinheiro da chamada cooperação internacional contra o terrorismo na África Ocidental e você vai encontrar uma teia confortável de ONGs, consultorias, contratos militares e burocracias multilaterais que prosperam exatamente porque o problema nunca se resolve. Resolver o problema seria o pior negócio possível para quem vive dele. O sangue dos policiais nigerianos paga salário em Genebra, em Washington, em Bruxelas, e paga muito bem. A indústria do "combate ao extremismo" precisa do extremismo como o coveiro precisa do defunto.

Há também a falência moral de uma civilização que perdeu a capacidade de nomear seus adversários. No Ocidente contemporâneo, dizer em voz alta o que está acontecendo na Nigéria é convite para ser acusado de toda sorte de fobias inventadas nos seminários universitários americanos. O resultado prático é que cristãos nigerianos morrem aos milhares enquanto colunistas europeus se preocupam com a inclusividade do cardápio escolar. A hierarquia de compaixão do progressismo global tem regras estranhas, e quem está embaixo da pirâmide é justamente quem mais sofre violência real, palpável, com nome e sobrenome.

O paradoxo final é o mais cruel. Países africanos que tentam responder com firmeza são imediatamente pressionados por organismos internacionais a respeitar protocolos de direitos humanos redigidos por gente que nunca pisou numa aldeia incendiada. Os mesmos governos ocidentais que armam um lado de qualquer conflito conveniente cobram da Nigéria moderação suicida diante de inimigos que não conhecem nenhuma. É a tirania terapêutica exportada na ponta da caneta, e o preço é pago em caixões de policiais que tinham família.

Dezoito anos. Pense nisso. Uma criança que nasceu no início desta insurgência hoje é adulta, e provavelmente já enterrou parente. Enquanto a opinião publicada do mundo civilizado debate se o termo "islâmico" é ofensivo, dezessete famílias nigerianas estão escolhendo o caixão. A próxima manchete já está sendo escrita, com as mesmas palavras vagas, a mesma indignação morna, o mesmo silêncio sobre o óbvio. E o óbvio é o que sempre foi: civilização que não nomeia seus inimigos termina enterrada por eles.

Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.