Mais um dia, mais uma rodada de mísseis sobre o Vale do Beqaa, e mais um comunicado oficial de chancelaria europeia pedindo "moderação" como quem pede para o vizinho abaixar o som da festa. O cessar-fogo entre Israel e Hezbollah, vendido em rede mundial como triunfo diplomático, hoje é o que sempre foi destinado a ser: um pedaço de papel assinado para inglês ver, enquanto a guerra continua no atacado e no varejo. Quer dizer, alguém realmente acreditou que dois exércitos que se odeiam há quarenta anos parariam porque um secretário de Estado disse "por favor"?
O fato concreto é simples e desagradável: ataques aéreos atingiram o leste do Líbano, ampliando o escopo geográfico do conflito justamente na hora em que se afirma, de Washington a Bruxelas, que "as hostilidades estão contidas". Contidas onde? No release de imprensa. No terreno, a coisa é outra. E quem paga a conta dessa farsa logística não é o premiê israelense, não é o aiatolá, não é o burocrata da ONU sentado em Nova York. É o motorista de caminhão libanês cujo armazém foi reduzido a pó, é o agricultor sírio do outro lado da fronteira que perdeu a colheita, e é, claro, o contribuinte americano e europeu que financia, via "ajuda militar" e "ajuda humanitária", os dois lados da mesma mesa.
Olha, sempre que uma guerra se eterniza apesar de todos jurarem que querem a paz, vale fazer o exercício elementar: quem ganha com a guerra continuando? Indústria de defesa que precisa repor estoques, governos que precisam de inimigo externo para esconder o desastre interno, ONGs que dependem do funeral para faturar a coroa de flores, contratantes de "reconstrução" que já estão lambendo os beiços para o próximo Plano Marshall financiado por dinheiro alheio. Quando você enxerga o organograma dos beneficiários, entende por que o cessar-fogo é uma ficção administrativa. Acabar a guerra seria o equivalente a fechar a fábrica.
Há ainda a hipocrisia da arquitetura institucional. Criamos no século vinte um andaime gigantesco de organismos multilaterais sob a promessa de que a violência entre Estados seria contida pela diplomacia técnica, pela governança global, pela boa vontade dos burocratas em terno cinza. O resultado, oito décadas depois, é que esses mesmos organismos servem de palco para discurso e de carimbo para invasão, mas não impedem absolutamente nada. O Líbano hoje prova, mais uma vez, que o monopólio estatal da violência, quando exportado para arena internacional, vira simplesmente licença para violência sem responsabilização.
E o brasileiro o que tem com isso, vai me perguntar o leitor apressado. Tem tudo. Toda vez que o Oriente Médio queima, o petróleo sobe, o dólar dispara, a inflação importada chega à bomba de gasolina e ao supermercado, e o Banco Central usa o pretexto para manter juros nas alturas que sangram quem produz. A guerra de outros vira imposto inflacionário sobre o seu salário, e ninguém te avisa, porque na cadeia de transmissão dessa pilhagem cada elo pode jurar de pé junto que não foi ele. A bomba cai em Baalbek, o preço do diesel sobe em Sorocaba, e o ministro da Fazenda culpa o clima.
No fim, a lição é a mesma de sempre, repetida desde que homens descobriram que era mais fácil tomar do que produzir: governos não fazem guerra por princípio, fazem guerra por interesse, e quando o interesse é grande o suficiente, nenhum tratado, nenhuma resolução, nenhum cessar-fogo segura a mão de quem aperta o gatilho. Paz duradoura não nasce de canetada em Genebra, nasce do desinteresse mútuo em continuar matando, e esse desinteresse, hoje, simplesmente não existe. Enquanto houver lucro político e financeiro na carnificina, haverá carnificina, e os comunicados oficiais continuarão sendo o que são: papel higiênico de luxo.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.