O foguete que vai levar quatro astronautas à órbita lunar no programa Artemis II se chama SLS, Space Launch System, e custa aproximadamente quatro bilhões de dólares por lançamento. Não por ano, não por programa: por lançamento. Para ter ideia do que esse número significa, uma empresa privada faz trajetória equivalente por noventa milhões de dólares, com tecnologia que ela mesma desenvolveu, com capital próprio, em menos tempo e sem precisar de aprovação congressual para trocar um parafuso. A diferença entre esses dois valores não é eficiência versus ineficiência. É o que acontece quando quem gasta não é quem paga.

A narrativa oficial sobre missões espaciais governamentais tem a virtude de soar bem sem explicar nada. Fala-se em "inspirar gerações", em "fronteiras da humanidade", em legado científico para o mundo inteiro, como se a retórica do bem comum justificasse qualquer cheque assinado com o dinheiro de contribuintes que não foram consultados. Quando você segue o rastro do dinheiro, porém, descobre que os maiores entusiastas do programa espacial americano não são astrofísicos, são lobistas de empresas de defesa. Boeing e Lockheed Martin estão no coração do consórcio que fabrica o SLS há mais de uma década, acumulam atrasos, estouros de orçamento e bônus contratuais que fariam qualquer gestor privado ser demitido na manhã seguinte. No setor público, esse histórico garante renovação de contrato.

O argumento clássico em favor do Estado como pioneiro espacial diz que apenas o governo tem escala e horizonte de planejamento suficientes para empreendimentos de risco tão elevado. O argumento parece razoável até você se lembrar que foi o capital privado, e não o Congresso americano, que desenvolveu o foguete reutilizável, que pousou na Lua por contrato em 2024 e que hoje opera a estação espacial com custo por quilo em órbita que a NASA não alcança nem nos seus melhores anos. O Estado não chegou primeiro porque tinha mais capacidade; chegou primeiro porque tinha o monopólio do financiamento e a conveniência de não responder a acionistas. Quando a concorrência apareceu, o monopólio ficou exposto.

Há uma confusão deliberada que convém ao arranjo vigente: entre o feito de ir ao espaço e a necessidade do Estado para fazê-lo. O primeiro é extraordinário; o segundo não é mais verdadeiro. A corrida espacial da Guerra Fria tinha uma lógica geopolítica que justificava, dentro da sua própria lógica, o gasto governamental massivo. Ninguém ia à Lua para estudar crateras; ia para mostrar ao inimigo que o míssil balístico funcionava. Quando essa lógica desapareceu, o programa sobreviveu pela inércia institucional e pela eficiência dos grupos de interesse em manter contratos vivos. O que restou da corrida espacial não foi a ciência, foi a burocracia.

O custo invisível de toda essa glória orçamentária é o que nunca aparece nos pronunciamentos presidenciais. Cada bilhão gasto no SLS é um bilhão que não ficou na mão de contribuintes que teriam aplicado esse recurso onde enxergassem valor real para suas próprias vidas. Podem ser empresas, podem ser famílias, podem ser pesquisadores independentes que teriam desenvolvido algo que o mercado efetivamente queria. Em vez disso, o dinheiro foi para a cadeia de fornecedores de um programa que levou doze anos para produzir um lançamento, cobra quatro bilhões por viagem e depende de aprovação congressual para existir. Se isso é o modelo de excelência tecnológica que o Estado oferece, o argumento já se respondeu sozinho.

O homem vai continuar indo ao espaço. A questão que a Artemis II não responde, mas que a conta no final do mês responde com clareza brutal, é se ele vai precisar do Estado para chegar lá ou se o Estado vai precisar ir junto para justificar sua própria existência. A diferença entre as duas perguntas é a diferença entre exploração genuína e desperdício organizado com bandeira fincada.

Com informações do Mises Brasil. A análise e opinião são do O Algoz.