Mais de trinta pessoas viraram estatística numa manhã qualquer no Paquistão, despedaçadas dentro de um trem que cumpria a rotina banal de atravessar o Baluchistão. Civis comuns, trabalhadores, famílias inteiras transformadas em manchete de rodapé enquanto a imprensa global se ocupa de discutir pronome em universidade americana. O atentado, reivindicado por separatistas que há décadas operam naquela região esquecida pelo mapa moral do Ocidente, não é um raio em céu azul. É a sequência previsível de um Estado que coleciona impostos com a eficiência de um mafioso e entrega segurança com a competência de um estagiário desmotivado.
Quer dizer, o Paquistão é o caso de manual daquilo que acontece quando o aparelho estatal se inflaciona sem cessar, devora orçamento militar absurdo, mantém uma das maiores forças armadas do planeta, e ainda assim não consegue garantir que um vagão chegue inteiro ao destino. Há décadas o governo central paquistanês promete pacificar o Baluchistão com tanque, decreto e propaganda. Resultado: separatistas mais organizados, população mais empobrecida, e bombas mais frequentes. O remédio sempre é mais Estado, e a doença sempre piora. Coincidência? Só para quem nunca leu uma página de história.
Olha, siga o dinheiro e a coisa fica ainda mais constrangedora. O Baluchistão é a província mais rica em recursos naturais do Paquistão, gás, cobre, ouro, minério, e simultaneamente a mais miserável. Pequim despejou bilhões ali via Corredor Econômico China-Paquistão, comprou portos, comprou políticos, comprou silêncio. O dinheiro entra, atravessa a burocracia federal de Islamabad, é distribuído entre generais e ministros, e quase nada chega ao baluchista que vê sua terra ser explorada por estrangeiros enquanto seu filho morre num trem. Quando a riqueza local é confiscada por um governo distante e devolvida em forma de migalhas, o terrorismo deixa de ser inexplicável e passa a ser quase didático.
Me diz uma coisa, qual é a diferença entre um Estado que oprime uma minoria étnica em nome da unidade nacional e um colonizador antigo que oprimia em nome da civilização? Apenas o vocabulário. A lógica é idêntica: concentrar poder no centro, sufocar a autonomia regional, criminalizar a resistência, e depois se espantar quando a panela de pressão explode. O Paquistão herdou do Império Britânico não apenas as fronteiras absurdas desenhadas a régua, mas o vício centralizador de governar populações inteiras sem o consentimento delas. E sempre que esse vício é cobrado, o preço é pago em corpos de civis que nada têm a ver com a briga.
Enquanto isso, o Ocidente terceiriza sua indignação. Se o atentado tivesse acontecido numa estação europeia, teríamos vinte e quatro horas de cobertura, hashtag global, troca de avatares e discurso comovido nas Nações Unidas. Como foi num canto periférico do mundo muçulmano, vira nota de pé de página. A geopolítica da empatia seletiva é uma das coisas mais reveladoras do nosso tempo: o sangue só comove quando derramado em endereço com boa visibilidade midiática. Os outros mortos são apenas dados para relatórios que ninguém lê.
O atentado paquistanês não é exótico, é um espelho. Mostra o que acontece quando o monopólio da força é exercido por burocracia inflada, longe demais do território que diz proteger, financiada por gente que jamais será defendida por ela. Onde o Estado promete tudo e entrega caos, o terror não é anomalia, é consequência. E enquanto ninguém tiver coragem de discutir o tamanho, o alcance e a arrogância dessas estruturas que se autodenominam protetoras, os trens vão continuar explodindo, aqui, lá, em qualquer trilho onde a soberba do poder central encontre o desespero do esquecido.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.