A cena beira o anedótico. Enquanto o mundo migra para fibra óptica, 5G e satélites em órbita baixa, o estado da Califórnia, aquele mesmo que se vende como a vitrine do futuro tecnológico ocidental, exige judicialmente que a AT&T continue mantendo, fio por fio, poste por poste, a infraestrutura de cobre que serviu para conectar telefones de disco no governo Eisenhower. A operadora, cansada de queimar capital para sustentar um sistema que praticamente ninguém usa mais, foi ao tribunal pedir o óbvio: deixem a gente desligar isso. E o regulador californiano, fiel ao manual do despotismo gentil, respondeu que não, que o cobre fica, porque alguém em algum lugar talvez ainda precise. Quem paga essa conta? Você já sabe.

Olha, existe uma diferença abissal entre proteger o consumidor e fossilizar a tecnologia. O argumento oficial é tocante: há idosos em áreas rurais, há regiões sem cobertura móvel decente, há o sagrado serviço de emergência. Tudo verdade, e tudo resolvível por meios infinitamente mais baratos do que manter uma rede inteira do século passado respirando por aparelhos. Mas o burocrata não pensa assim. O burocrata pensa em processo, em regulamento, em audiência pública, em parecer técnico de três volumes. A solução elegante, barata e moderna não cabe no formulário. O fio de cobre, sim.

E aqui aparece a parte que ninguém quer enxergar. Cada dólar que a AT&T é obrigada a enterrar nessa relíquia é um dólar que não vai para expansão de fibra em bairros pobres, não vai para reforço de 5G em zonas rurais, não vai para baixar a conta do consumidor médio. O emprego do técnico que troca o cabo apodrecido em Bakersfield é visível, palpável, fotogênico. Os mil empregos de engenheiros, instaladores e atendentes que nunca existirão na nova rede porque o capital foi sequestrado pela exigência regulatória, esses ninguém vai ver, ninguém vai contabilizar, ninguém vai chorar. A janela quebrada continua funcionando como modelo mental dominante de quem nunca leu nada além de cartilha sindical.

Tem uma coisa ainda mais perversa nessa história, e é o seguinte: o regulador californiano sabe perfeitamente que o cobre está morto. Ele sabe. Os técnicos dele sabem. Os engenheiros consultados sabem. Mas manter a obrigação é manter o poder. Se a AT&T pode simplesmente desligar quando quiser, o regulador perde alavancagem, perde justificativa orçamentária, perde o ritual de audiências, perde o emprego de meia dúzia de analistas seniores que vivem de redigir pareceres sobre a obrigação universal de serviço. O cobre não é mantido para os idosos. O cobre é mantido para os burocratas. Os idosos são o álibi moral.

E é esse o padrão que se repete em cada setor regulado da economia ocidental contemporânea. Cria-se uma exigência sob justificativa nobre, a exigência envelhece, a tecnologia avança, a exigência perde sentido, e quando alguém ousa pedir para revogá-la, o coro dos beneficiários invisíveis grita que será o fim da civilização. A empresa quer desligar uma rede obsoleta? Genocídio dos idosos. A empresa quer investir em algo novo? Ganância capitalista. Não importa o que ela faça, o regulador sempre tem um motivo para apertar mais um parafuso, cobrar mais uma taxa, exigir mais um relatório. O resultado final dessa engrenagem é uma economia que paga caríssimo por serviços medíocres, enquanto a propaganda oficial fala em proteção do consumidor.

A pergunta que o cidadão californiano deveria estar fazendo não é se a AT&T tem razão. Ela tem, e qualquer engenheiro de telecomunicações honesto confirma isso em trinta segundos. A pergunta é por que um estado precisa de um tribunal para autorizar uma empresa privada a aposentar uma tecnologia de cem anos atrás. Quando a resposta envolve audiência pública, comissão regulatória e processo administrativo de cinco anos, você está olhando para o retrato fiel do que sobra de uma economia quando o burocrata vira o personagem principal. E pode anotar: enquanto a Califórnia discute como proteger o fio de cobre, a China termina mais dez mil quilômetros de fibra. A história não perdoa povos que confundem regulação com sabedoria.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.