O dado saiu, a manchete viajou e os analistas de terno engomado correram para celebrar que a atividade de serviços da China cresceu no ritmo mais rápido em três meses no mês de maio. Bastou um índice marginalmente acima da linha que separa expansão de contração para o noticiário decretar que o gigante asiático "deu sinais de recuperação". Quer dizer, num país onde o Partido decide o que se mede, quem mede e quando se publica, ficar entusiasmado com PMI é o equivalente intelectual a pedir auditoria contábil ao próprio sonegador. O número existe, mas a realidade que ele descreve passa por filtros que nenhum economista honesto deveria engolir sem mastigar antes.
Olha, a economia chinesa há quase uma década é sustentada por três muletas que ninguém quer encarar de frente. Crédito artificial despejado pelos bancos estatais, gasto público travestido de investimento produtivo e a maquiagem estatística de uma burocracia que tem incentivos óbvios para mentir. Quando o índice de serviços sobe num mês isolado, depois de meses de deflação, queda imobiliária, exportação combalida e juventude desempregada em níveis que o regime parou de divulgar oficialmente, o que se está vendo não é vigor de mercado. É o resultado contábil de mais um empurrão de liquidez que vai cobrar juros mais adiante, em alguma crise bancária que será chamada de "desafio pontual".
Me diz uma coisa, se a economia chinesa estivesse mesmo respirando por conta própria, por que o banco central de lá continua cortando compulsório, comprando títulos podres de incorporadoras quebradas e injetando yuans num sistema bancário que esconde inadimplência atrás de balanços decorados? Por que Pequim segue forçando estatais a contratar jovens que não encontram emprego no setor privado? A resposta é a mais antiga da história econômica: quando o planejador central precisa fingir crescimento, ele compra crescimento com dinheiro que não existe, e chama isso de política monetária responsável. O boom é visível, o custo é invisível, e a conta é repassada para quem ainda não nasceu.
O que ninguém quer enxergar é o seguinte. Um país que prendeu seus maiores empresários de tecnologia, sumiu com bilionários em jantares, estatizou de fato a economia digital, sufocou o setor imobiliário com regulação retroativa e transformou o ambiente de negócios numa adivinhação sobre o humor do líder máximo, não produz crescimento sustentável. Produz números. Produz manchete. Produz reunião de fundo soberano em Davos. Mas não produz prosperidade real, porque prosperidade real exige aquilo que regime nenhum de partido único consegue oferecer: previsibilidade jurídica, propriedade respeitada e liberdade para que milhões de pessoas, sem pedir licença a comitê algum, descubram o que vale a pena fazer.
E aqui está a parte que devia constranger a imprensa econômica brasileira, que reproduz esses dados com a mesma reverência com que repórter de Estado totalitário lia boletim de produção de tratores soviéticos. A China é o exemplo vivo de que dirigismo econômico pode adiar o colapso por décadas se houver pólvora suficiente, mas não pode revogar as leis da escassez nem suspender o cálculo econômico real. Cada PMI ligeiramente positivo divulgado por Pequim hoje é um pedaço a mais de dívida transferida para uma geração que herdará prédios vazios, bancos zumbis e uma demografia em queda livre. O boom de hoje é o bust de amanhã, e quem se anima com gráfico de três meses nunca leu um único livro sobre o que sustenta uma civilização que produz riqueza.
No fim, a notícia diz pouco sobre a China e diz tudo sobre quem a celebra. Diz que o capital global ainda não aprendeu, depois de tantos ciclos, que estímulo monetário em economia controlada é morfina em paciente terminal. Alivia, faz sorrir, deixa o moribundo dar uma palavra animada para os parentes, e ninguém ousa lembrar que a doença continua matando por baixo do lençol. Quem investe ouvindo manchete de PMI chinês está pagando para participar do velório, achando que está no casamento.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.