Israel anunciou que os tripulantes da flotilha interceptada rumo a Gaza serão soltos da detenção e despachados de volta aos seus países de origem. Fim de linha para a aventura marítima que mobilizou câmeras, hashtags e indignação programada nos quatro cantos do globo. O roteiro é tão antigo que dispensa apresentação: barcos saem da Europa, são interceptados em águas controladas, ativistas são detidos por algumas horas, libertados, e voltam para casa transformados em celebridades de causa. O ciclo se repete há mais de uma década, e cada nova edição é vendida como se fosse a primeira.
Olha, ninguém em sã consciência embarca em um navio rumo a uma zona de bloqueio militar declarado sem saber exatamente o que vai acontecer. Não é coragem, é encenação ensaiada. A interceptação está no script, a detenção está no script, a deportação está no script, e o choro na coletiva de imprensa, com direito a foto de passaporte na mão, também está. O que se vende como ato de bravura é, na prática, uma operação de marketing geopolítico onde o "risco" foi calculado até a última milha náutica.
E quem paga a conta dessa peça? Aí mora o detalhe que ninguém quer olhar. Siga o dinheiro e você vai esbarrar em ONGs financiadas por governos europeus, fundações bilionárias com agendas muito específicas e, em alguns casos, organizações que trocam fertilizante por foguete quando ninguém está vendo. O ativista que sobe no barco acha que está fazendo história; está, na verdade, sendo o ativo operacional barato de uma engrenagem que custa milhões e rende dividendos políticos para quem está em terra firme, de paletó, esperando o telefonema do jornalista internacional.
Tem ainda o capítulo dos contribuintes dos países de origem, que vão custear a repatriação, a assistência consular, a eventual ação diplomática e o circo midiático subsequente. Quer dizer, o sujeito decide, por conta própria, navegar para uma área proibida, é detido como qualquer pessoa seria em situação análoga, e o pagador de imposto que nunca pediu nada disso é convocado a bancar o desfecho. É a velha lógica em que o aventureiro colhe os louros e a coletividade colhe a fatura. Privatizam-se as glórias, socializam-se os custos.
O ponto que escapa ao noticiário é que Israel, ao libertar e deportar em vez de processar com o rigor da lei, está jogando exatamente o jogo que os organizadores queriam. Detenção curta, manchete garantida, vítima fabricada, ciclo recomeça em seis meses com novo barco, nova bandeira, mesma turma. O Estado que se pretende rigoroso na fronteira mas frouxo no julgamento ensina, sem querer, que furar bloqueio sai barato, e que a punição máxima é uma viagem aérea com escala. Não há dissuasão, há subsídio cruzado ao espetáculo.
No fundo, a flotilha não é sobre Gaza, sobre direitos humanos ou sobre coragem cívica. É sobre a indústria da indignação, que descobriu há muito tempo que o sofrimento alheio dá audiência, que a câmera transforma turista em mártir e que a moeda mais valiosa do século não é o dólar nem o ouro, é a vitimização performática transmitida ao vivo. Enquanto isso, os palestinos comuns, esses sim reféns reais de um regime terrorista que governa a faixa, continuam onde sempre estiveram, fora da foto, fora da pauta, fora do barco.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.