A conta saiu, e ela é constrangedora para quem vendeu a operação como restauração da ordem. Foram 668 mil empregos perdidos depois que o ICE entrou em modo espetáculo, segundo a própria Brookings, que dificilmente pode ser acusada de panfletária libertária. O número fere o discurso oficial de que cada imigrante removido liberaria uma vaga para o trabalhador nativo, fantasia mercantilista requentada que confunde mercado de trabalho com cadeira de escola. Quando se retira um trabalhador real de uma cadeia produtiva real, não se cria vaga, destrói-se nó. E nó destruído derruba toda a malha que dele dependia.

Aqui mora a parte que ninguém quer encarar, porque exige enxergar o que não aparece na manchete. O emprego do pedreiro mexicano sustentava o emprego do mestre de obras americano, que sustentava o emprego da secretária da construtora, que sustentava o pedido do restaurante da esquina, que sustentava o motoboy de entrega. Cortar o primeiro elo não devolve postos, evapora a cadeia inteira. O eleitor que aplaudiu a batida policial na obra ao lado é o mesmo que agora reclama que sua empresa demitiu metade do escritório. Coincidência? Não, aritmética.

E tem o detalhe da trilha do dinheiro, que ninguém investiga com a devida malícia. Operação massiva do ICE significa contrato gordo de transporte, contrato gordo de detenção privada, contrato gordo de logística, contrato gordo de tecnologia de monitoramento. Quem ganha quando o governo decide encenar grande operação? As mesmas empresas que financiam as campanhas dos congressistas que aprovam o orçamento da agência. O contribuinte paga duas vezes, na conta do espetáculo e na conta dos empregos que sumiram, enquanto o lobista fatura no meio do caminho. É o velho arranjo: socializam-se os custos, privatizam-se as comissões.

Há ainda o capítulo cultural, que merece sarcasmo dosado. Vendeu-se ao americano comum que sua dificuldade econômica era culpa do estrangeiro que veio fazer o trabalho que ele mesmo recusou por dez dólares a hora. Funciona como toda boa narrativa populista, encontra um bode expiatório visível para esconder o culpado invisível, que é o banco central imprimindo dinheiro, o congresso gastando além da conta, e a regulação encarecendo cada metro quadrado construído. O imigrante não causou a inflação no aluguel, a impressora monetária causou. Mas é mais fácil prender o pedreiro do que enfrentar o presidente do Fed.

O que a Brookings descreveu como surpresa estatística é, na verdade, lição básica que qualquer comerciante de bairro sabia antes de existir relatório. Trabalho é cooperação, não competição de soma zero. Cada par de mãos a mais na economia produz para alguém e consome de alguém, gera renda para terceiros e demanda para quartos. Tirar mãos do mercado não enriquece os que ficaram, empobrece todo mundo. E a fatura, como sempre, chega no boleto do cidadão que aplaudiu sem entender o que estava aplaudindo.

No fim, a operação ICE virou o que toda intervenção estatal grandiloquente acaba virando: um teatro caro, financiado por quem paga imposto, lucrado por quem tem contrato, e cobrado de quem só queria trabalhar em paz. Seiscentos e sessenta e oito mil empregos é o preço que se cobra do povo americano para que um burocrata possa posar de durão no horário nobre. Quando o Estado decide quem pode trabalhar, é sempre o trabalho que perde.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.