A Austrália acaba de bater à porta da 3M cobrando US$ 1,43 bilhão por décadas de contaminação com PFAS, aquela família de compostos sintéticos apelidada carinhosamente de "químicos eternos" porque, uma vez despejados na natureza, ficam lá praticamente para sempre, atravessando gerações como herança maldita. O processo é o maior do tipo já movido por um governo nacional contra um fabricante químico, e o pano de fundo é constrangedor: documentos internos da própria 3M, vazados em litígios anteriores nos Estados Unidos, mostram que a empresa já sabia nos anos 1970 que essas substâncias se acumulavam no sangue humano e em tecidos animais. Sabia, calou, vendeu, lucrou, e agora descobre que existe um tipo de dívida que não prescreve.

Vale entender o que está em jogo aqui sem o verniz técnico. PFAS é o nome genérico de milhares de compostos usados em espuma de combate a incêndio, panelas antiaderentes, embalagens de fast food, tecidos impermeáveis e basicamente em qualquer produto vendido com a promessa de "não gruda, não mancha, não pega fogo". A propaganda funcionou tão bem que esses compostos hoje estão no sangue de praticamente todo ser humano no planeta, incluindo recém-nascidos que nunca pisaram numa loja. A Austrália foca o processo na contaminação ao redor de bases militares onde a espuma da 3M foi usada por décadas, mas o problema é planetário, e o caso australiano é apenas a primeira fatura.

Aqui é onde a história fica interessante para quem gosta de seguir o dinheiro. A 3M anunciou em 2022 que vai abandonar a produção de PFAS até o final de 2025, gesto que a imprensa corporativa vendeu como "compromisso ambiental". Detalhe inconveniente: a decisão veio depois de a empresa acumular dezenas de bilhões em provisões para litígios e um acordo de US$ 10,3 bilhões com sistemas públicos de água nos Estados Unidos. Quer dizer, o "compromisso" surgiu quando os advogados perceberam que o custo do processo passou a ser maior que o lucro da fábrica. Virtude tardia tem cheiro forte de planilha.

O ponto que ninguém quer encarar é o seguinte: por décadas, agências reguladoras americanas, europeias e australianas tiveram acesso a estudos preocupantes sobre PFAS e fizeram o que costumam fazer quando empresa grande paga lobby caro, ou seja, nada. Não foi falta de mercado livre que produziu este desastre, foi sobra de cumplicidade entre o regulador que finge fiscalizar e o regulado que finge cumprir. Toda vez que o cidadão comum bebe da torneira e descobre vinte anos depois que ali tinha veneno, há um burocrata aposentado com pensão integral e um executivo aposentado com bônus de saída que sabiam do problema e escolheram olhar para o outro lado.

O remédio que a turma do "mais Estado" vai propor é previsível: criar uma nova agência, contratar mais fiscais, aumentar imposto sobre a indústria química, talvez subsidiar a "transição verde" de quem envenenou o planeta para que continue lucrando enquanto se redime. Funciona assim sempre. Quem causou o problema com a bênção do regulador vira fornecedor da solução paga pelo contribuinte, e o cidadão, que nunca foi ouvido, paga três vezes: na contaminação, no tratamento médico e no imposto. Existe uma palavra antiga para isso, e ela não é capitalismo.

A lição que o caso australiano oferece é dura mas simples. Não existe "químico eterno" sem uma cadeia humana muito concreta de decisões tomadas por pessoas com nome, sobrenome e holerite, em empresas e gabinetes que se protegeram mutuamente. O mercado funciona quando quem causa dano paga pelo dano, sem escudo regulatório, sem foro privilegiado corporativo, sem acordo de não admissão de culpa. A Austrália está, ao menos por enquanto, fazendo aquilo que o regulador deveria ter feito quarenta anos atrás. Tarde, caríssimo, e ainda assim necessário. Porque a única coisa pior que pagar a conta de um crime é pretender que ele nunca aconteceu.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.