A Áustria acaba de perder seu último selo AAA junto às grandes agências de classificação de risco, encerrando uma era em que figurava no pelotão dos pagadores mais sólidos do continente. O motivo não é mistério, nem precisa de comitê de notáveis para decifrar, são déficits orçamentários persistentemente altos, daqueles que ninguém quer chamar pelo nome enquanto a música toca. Quando a música para, sobra o boleto, e o boleto não respeita tradição centenária nem reputação de boa pagadora.

Há algo de quase cômico no espanto com que parte da imprensa europeia recebe a notícia, como se rebaixamento fosse fenômeno meteorológico, algo que cai do céu sem aviso. Não cai. É construído, parágrafo por parágrafo, no orçamento, na rubrica do gasto social que cresce em ritmo de juros compostos, no subsídio que ninguém ousa cortar porque "afetaria os mais vulneráveis", na transferência permanente que começou como medida emergencial em alguma crise esquecida e nunca mais foi embora. O déficit não é acidente, é projeto. E todo projeto tem dono, beneficiário e pagador, embora só o último apareça na lista nominal.

Vale a pena olhar para o que não está nas manchetes. O rebaixamento significa, em termos práticos, que cada euro que Viena pedir emprestado a partir de agora custará um pouco mais, e esse "pouco mais" multiplicado pela montanha de dívida vira bilhão, e bilhão multiplicado por anos vira geração inteira pagando a conta de uma festa que não frequentou. O empresário que não foi contratado, o jovem que emigrou, o aposentado cujo poder de compra evaporou silenciosamente, estes são os credores invisíveis da gastança alegre. Nenhum deles aparece nos comunicados oficiais, mas todos assinaram o contrato sem que ninguém lhes perguntasse.

O caso austríaco é interessante justamente porque não é o caso da Grécia, nem da Itália, nem de qualquer país que a imaginação preguiçosa associa a desleixo fiscal. Estamos falando do país do rigor germânico, da contabilidade impecável, do estereótipo do pagador pontual. Se até este perde o selo, a lição é universal, não existe cultura, sotaque ou tradição que neutralize a aritmética. Gastar mais do que se arrecada, ano após ano, financiando o presente com promessas sobre o futuro, é fórmula matemática, não escolha estética. E a matemática, ao contrário do político, não negocia.

O mais revelador é o roteiro que virá. Apostem nele. Primeiro, os comunicados de "preocupação responsável" e o discurso de que "é preciso equilibrar contas sem afetar conquistas sociais", expressão mágica que significa, em tradução livre, "vamos aumentar imposto em vez de cortar gasto". Depois, a descoberta súbita de que existem "ricos" que precisam "contribuir mais", embora "ricos" seja palavra elástica que sempre acaba alcançando o profissional liberal de classe média. Por fim, a constatação, daqui a alguns anos, de que mesmo com mais imposto o déficit voltou, porque o gasto cresceu junto, como cresce sempre quando o cofre parece ter fundo falso. É o ciclo, é a espiral, é a regra. Quem promete pão e circo sem cobrar a entrada termina vendendo o teatro.

Fica a pergunta que os jornais de bem não farão, qual o limite? Em que momento a Europa, esse continente que confunde generosidade com sustentabilidade, vai admitir que Estado de bem-estar financiado por impressora e dívida é esquema piramidal com hino nacional? A Áustria perdeu uma letra do alfabeto da credibilidade. Outros perderão mais. E quando a conta final chegar, ninguém na fila vai conseguir explicar como foi que a Europa mais próspera da história decidiu, em pleno século XXI, que viver acima dos meios era direito adquirido. Não era. Nunca foi. E a fatura, esta sim, é hereditária.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.