A notícia chega embrulhada na linguagem cuidadosa dos comunicados oficiais, mas o conteúdo é cristalino: autoridades dos Estados Unidos estão discutindo adquirir participações acionárias em empresas privadas de inteligência artificial. Traduzindo do burocratês para o português, o governo americano quer ser acionista das mesmas empresas que regula, fiscaliza, subsidia e eventualmente processa. Quer dizer, o juiz vai comprar uma cadeira no conselho do réu, e nos pedem para acreditar que isso é bom para a justiça.

Olha, a história tem manual de instruções para esse tipo de arranjo, e o manual sempre termina mal. Quando o Estado deixa de ser árbitro e vira jogador, ele não larga nenhum dos dois papéis, acumula. Vira árbitro-jogador, com apito no bolso e camisa do time. E que time é esse? O time das empresas suficientemente grandes para terem lobistas em Washington, suficientemente úteis ao aparato de segurança nacional, suficientemente dóceis para aceitar o sócio armado. As outras, as pequenas, as ousadas, as que ainda nem nasceram, essas vão competir contra um cartel com poder de polícia. Boa sorte.

Sigamos o dinheiro, porque é nele que mora a verdade. O contribuinte americano, que nunca foi consultado sobre virar acionista compulsório de empresa de IA, vai pagar a conta da aquisição via Tesouro. O retorno, se houver, será capturado pela burocracia que administrar a participação, criando um novo apetite por mais participações, em mais setores, sob mais pretextos. O CEO da empresa "investida" descobrirá, num belo dia, que demitir engenheiro virou questão geopolítica. Que abrir escritório no exterior precisa de carimbo. Que treinar modelo de linguagem em determinado tema é "risco à segurança nacional". A inovação morre, mas morre vestida de gravata, com placa dourada na porta.

O argumento oficial sempre é o mesmo, e é o mais perigoso de todos: precisamos disso para competir com a China. Tradução: precisamos copiar o pior do adversário para derrotá-lo. É a lógica do bombeiro que ateia fogo na casa para provar que sabe apagar incêndio. Se o problema é o capitalismo de Estado chinês, a resposta não pode ser construir um capitalismo de Estado americano com sotaque mais polido. A diferença entre os dois acaba sendo apenas o idioma do contrato e a marca do uísque servido nas reuniões do conselho.

E há o lado que ninguém quer enxergar, o lado invisível da equação. Cada dólar que o Tesouro usa para comprar ações de gigantes da IA é um dólar que sai do bolso de alguém, que poderia estar financiando a próxima empresa garagem que ninguém ainda conhece, o próximo pesquisador independente, o próximo cético que faria a pergunta incômoda. Esse capital, agora, vai engordar incumbentes politicamente conectados. O resultado visível serão manchetes de "investimento histórico". O resultado invisível serão as inovações que jamais existirão, os concorrentes que serão asfixiados antes mesmo de respirar, os preços que continuarão altos porque a concorrência foi sufocada na origem.

No fim, o que se desenha não é parceria público-privada, é fusão público-privada, com o privado sendo lentamente engolido pelo público sob o disfarce de proteção estratégica. Chamam isso de capitalismo de Estado quando acontece em Pequim e de política industrial inteligente quando acontece em Washington. Os nomes mudam, a essência não. Onde o governo entra como sócio, o consumidor sai como refém, e a inovação se transforma em encenação. A inteligência artificial pode ser o futuro, mas se o futuro tiver carimbo de cartório oficial, vai chegar tarde, caro e domesticado.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.