A cena se repete com pontualidade suíça. Toda vez que Wall Street descobre uma nova palavra da moda, aparece uma empresa disposta a vender a cura antes mesmo de a doença existir. A AvePoint desfilou na conferência global de tecnologia, mídia e telecom do Citi na semana passada anunciando, com toda a solenidade de quem descobriu a penicilina, que agora o negócio é governança de inteligência artificial. Traduzindo do idioma corporativo para o português dos mortais, isto significa vender software caro para empresas grandes controlarem, catalogarem, auditarem e engessarem o uso da tecnologia que elas mesmas correram para adotar dois anos atrás. O ciclo é perfeito, o gato morde o próprio rabo, e no meio da roda tem sempre alguém cobrando pedágio.

Repare no truque, porque ele é velho como o mundo. Primeiro se cria a histeria, painéis de risco existencial, manchetes sobre a máquina que vai roubar empregos, reguladores europeus salivando por mais uma diretiva. Depois surge, providencialmente, uma indústria inteira dedicada a resolver o problema que a própria narrativa fabricou. É a mesma coreografia do compliance bancário, do RGPD, da ESG, da diversidade obrigatória. Cria-se uma exigência artificial, e nasce um mercado cativo de milhões de dólares para atender à exigência. Quem paga a conta no fim da linha nunca é o consultor de terno cinza, é o consumidor final, é o funcionário demitido para bancar o novo departamento de governança, é o pequeno concorrente que não tem caixa para contratar o pacote inteiro e por isso desiste de existir.

A AvePoint sabe exatamente onde está pisando, e por isso pisa firme. A empresa cresceu nos últimos anos justamente cavalgando a onda da conformidade digital, primeiro no ecossistema da Microsoft, agora na onda maior da inteligência artificial. Não é acaso que a apresentação foi feita no Citi, banco que financia, promove e lucra com cada nova camada de intermediação que se acrescenta ao mercado. A relação entre o financista, o vendedor de conformidade e o regulador não é conspiração, é convergência de interesses. Todos ganham quando a burocracia cresce, todos perdem quando o mercado respira livre. E o pequeno empreendedor que queria apenas usar uma ferramenta de IA para automatizar a contabilidade do seu restaurante descobre, de repente, que precisa contratar um oficial de governança de dados para não ser processado.

Há aqui uma inversão perversa que ninguém tem coragem de nomear. A inteligência artificial nasceu como promessa de descentralização, de dar poder computacional ao indivíduo, de democratizar o acesso a análises que antes estavam trancadas nos porões das grandes corporações. Bastaram vinte e quatro meses para que a mesma tecnologia fosse capturada, cercada, licenciada, auditada e transformada em mais um instrumento de concentração de poder. Quem tem departamento jurídico de trezentos advogados usa IA à vontade porque compra o pacote de governança da AvePoint. Quem tem um advogado só, ou nenhum, fica de fora. A retórica é sempre a mesma, é para proteger o cidadão, é para garantir a ética, é para evitar vieses. O resultado real, sempre, é fechar a porta atrás de si depois de entrar.

O mais engraçado é observar a plateia dos analistas financeiros aplaudindo esse modelo de negócio como se fosse inovação. Não é inovação, é rent seeking sofisticado, é a arte milenar de transformar regulação em mercado cativo. As grandes fortunas dos últimos trinta anos não foram construídas inventando coisas novas, foram construídas capturando o processo regulatório que decide quem pode e quem não pode inventar. A AvePoint não vende software, vende chave de porteira. E enquanto os investidores compram ações da empresa apostando no crescimento perpétuo do mercado de conformidade, o resto da economia produtiva vai pagando o preço de uma camada adicional de fricção que não gera riqueza, apenas redistribui a riqueza existente em direção a quem soube posicionar seu produto no lado certo do balcão regulatório.

Uma sociedade livre não precisa de um comitê para autorizar cada uso de uma ferramenta. Precisa de responsabilidade individual, de tribunais que funcionem, de contratos que sejam cumpridos, e de coragem para admitir que o risco é parte inseparável de qualquer coisa nova que valha a pena. Toda vez que se substitui julgamento humano por checklist automatizado, e coragem empreendedora por certificação corporativa, mata-se um pedaço da vitalidade que fez a civilização ocidental. A conferência do Citi celebra o funeral dessa vitalidade com champanhe caro, e chama isso de progresso. O nome correto é outro, mas ninguém em Nova York tem coragem de pronunciar.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.