A Avril, gigante francesa do agronegócio, conseguiu o que todo executivo europeu sonha em conseguir nas manhãs de segunda-feira: convencer o governo a colocar 70 milhões de euros na mesa para salvar uma fábrica que o mercado, em sua sabedoria implacável, já havia condenado. A unidade em questão é a última produtora europeia de aminoácidos para ração animal, e a justificativa para o socorro é aquela palavra mágica que vem servindo de senha para todo tipo de pilhagem desde que inventaram a imprensa de papel-moeda: soberania. Soberania alimentar, soberania industrial, soberania estratégica, soberania de qualquer coisa que não consiga sobreviver sem que o vizinho seja obrigado, na ponta da espingarda fiscal, a comprar o produto mais caro.
Quer dizer, vamos por partes. Os aminoácidos sintéticos, lisina e metionina principalmente, são fabricados na Ásia por uma fração do custo europeu. Não porque os asiáticos sejam mais espertos ou trabalhem por arroz, mas porque construíram parques industriais sem o cipoal regulatório que Bruxelas exporta para todos os seus cantos como se fosse civilização. Energia mais barata, encargos trabalhistas decentes, ambientalismo que não exige autorização tripla para mexer um parafuso. Resultado natural: a indústria química europeia, que já foi a inveja do planeta, virou museu vivo, sustentada por respiração boca a boca paga pelo trabalhador que ainda não emigrou.
O fascinante é o vocabulário. Não chamam de subsídio, chamam de "investimento estratégico". Não chamam de transferência de renda do contribuinte para o acionista da Avril, chamam de "parceria público-privada". Não chamam de protecionismo, chamam de "autonomia produtiva". Toda vez que uma palavra nova aparece no Diário Oficial, pode apostar que alguém está enfiando a mão no seu bolso e quer que você bata palmas. Os 70 milhões não brotaram de uma árvore frutífera nos jardins do Palácio do Eliseu; foram extraídos, com a delicadeza de um dentista bêbado, do agricultor que paga imposto sobre o trator, do padeiro que paga imposto sobre a farinha, do aposentado que paga imposto sobre a baguete que come com a pensão minguada.
E aqui vem a parte que ninguém escreve nos comunicados oficiais. Esses 70 milhões não vão financiar uma fábrica competitiva no ano que vem; vão financiar uma fábrica que continuará não competitiva, e que daqui a três anos voltará com o pires na mão pedindo a próxima dose. Subsídio é como antibiótico vencido: alivia o sintoma e mata a bactéria útil que ainda restava no organismo. Cada euro injetado na Avril é um euro que não vai para a startup de proteína alternativa, para o pequeno produtor que tinha uma ideia melhor, para o pesquisador independente que talvez tivesse resolvido o problema de outro jeito. O capital, esse fluido inteligente que naturalmente procura o melhor uso, é desviado por mão burocrática para o pior uso possível, justamente aquele que já provou ser inviável.
Existe, claro, o argumento da dependência estratégica. E se a China cortar o fornecimento? E se a guerra na Ásia interromper as cadeias? Argumento respeitável até o instante em que você olha para o mapa e percebe que o mesmo governo francês que se diz preocupado com depender da China para aminoácidos depende dela para painel solar, terra rara, bateria, medicamento genérico, parafuso e mais ou menos qualquer coisa que não seja queijo brie e perfume. A soberania virou conceito modular, ativada seletivamente sempre que coincide com o CEP de um grande doador de campanha. Curioso como a fragilidade estratégica nunca é detectada nos setores onde não há lobby instalado.
O que esses 70 milhões revelam, no fim do dia, não é uma política industrial, é uma confissão. Confissão de que o modelo europeu de regulação asfixiante, energia cara, transição verde a fórceps e burocracia barroca tornou impossível produzir competitivamente até mesmo bens essenciais no próprio continente. Em vez de remover as causas, drogam o paciente. Em vez de cortar o cipoal, espalham adubo no formigueiro. E o cidadão, infantilizado por décadas de tutela suave, aplaude o presidente que salvou empregos sem perceber que pagou três vezes: como contribuinte, como consumidor de ração mais cara, e como herdeiro de uma economia que está sendo gentilmente eutanasiada em nome da própria salvação.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.