O timing é desses que merecem moldura. O céu do Golfo Pérsico ainda cheirava a propelente queimado, os destroços dos mísseis iranianos ainda eram catalogados pelos militares americanos baseados em Manama, e o tesouro do Bahrein já estava ao telefone com os bancos de investimento de Londres marcando o roadshow do novo bônus em dólar. Não é insensibilidade, é cálculo. O reino sabe perfeitamente que o investidor institucional não compra paz, compra a certeza de que alguém maior vai garantir a fatura quando ela vencer. E esse alguém, no caso, veste uniforme da Marinha americana.
Olha o arranjo com calma. O Bahrein tem dívida pública em torno de 130% do PIB, déficit fiscal crônico, petróleo que rende cada vez menos, e uma família real que gasta como se ainda fosse 1973. Em qualquer outro lugar do planeta com esses fundamentos, o spread cobrado seria de junk bond de favela. Mas aqui o pagador final implícito não é o xeique, é o contribuinte de Ohio que financia a Quinta Frota e os subsídios sauditas que cobrem os buracos do vizinho menor. O mercado precifica essa garantia invisível como se fosse cláusula contratual. E é exatamente isso que faz a coisa funcionar.
Quer dizer, todo mundo finge que está olhando para o risco soberano do Bahrein quando na verdade está olhando para a disposição do Pentágono em manter base militar em solo bareinita. O bônus que será emitido nesta semana é, na prática, um derivativo do orçamento de defesa americano, embrulhado em papel árabe para parecer investimento exótico de carteira diversificada. Os fundos de pensão europeus compram, os bancos suíços distribuem, e o cidadão do Texas paga o cupom sem nunca ter sido informado de que era avalista da operação. É a alquimia clássica do welfare imperial, só que travestida de mercado de capitais.
E note o detalhe geopolítico que ninguém comenta em voz alta. Por que justamente horas depois do ataque? Porque a janela de marketing é essa. Enquanto os mísseis voam, o reino prova ao investidor que a guarnição americana está ativa, que o escudo antiaéreo funciona, que o compromisso de defesa não é retórica. O ataque iraniano, paradoxalmente, virou material de marketing. Cada Patriot disparado em Manama é um basis point a menos no cupom. A guerra deixou de ser tragédia para virar prospecto de captação. Se isso não é o mais puro capitalismo de compadrio armado, então a palavra perdeu sentido.
O que o leitor precisa entender é que esse modelo não é exceção, é o sistema. Egito, Jordânia, Paquistão, Ucrânia, todos vivem da mesma engenharia: dívida soberana precificada com base no compromisso geopolítico americano, sustentada por contribuintes que jamais autorizaram aval algum. O dinheiro impresso lá em Washington financia a base militar em Manama, que sustenta a nota de crédito do Bahrein, que permite a emissão do bônus, que vai parar na carteira do aposentado alemão que jurava estar comprando renda fixa segura. Quando a corrente quebrar, e ela vai quebrar, ninguém vai entender por que o sistema todo desabou de uma vez. Vai desabar porque nunca houve sistema, só uma cadeia de favores trocados entre governos com dinheiro alheio.
O Bahrein vai colocar o bônus, os bancos vão cobrar a comissão gorda, a Bloomberg vai publicar matéria celebrando o apetite do investidor por mercados emergentes, e ninguém vai escrever o que realmente aconteceu. Que um país insolvente vendeu dívida garantida implicitamente pelo poder de fogo de outro país, no exato momento em que esse poder de fogo era acionado para defender o ativo subjacente. É elegante, é cínico, e é exatamente o tipo de coisa que faz qualquer pessoa minimamente lúcida desconfiar de tudo que se chama hoje de mercado financeiro internacional. Mercado é onde o preço reflete escassez e risco. Isso aqui é outra coisa. Isso aqui é protetorado com cupom semestral.
Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.