A notícia chega seca, daquelas que o leitor distraído lê em meio segundo e segue rolando o feed, mas vale parar. Bain Capital, junto com a LY Corporation, elevou a oferta pelo controle do Kakaku.com, gigante japonês de comparação de preços e avaliações, num movimento direto para sufocar a contraproposta da EQT, fundo sueco que vinha tentando levar o ativo. Em japonês fino, é uma guerra de envelopes; em português de boteco, é leilão de gado com dois fazendeiros bêbados de liquidez.
O detalhe que o noticiário financeiro raramente sublinha é que essas brigas de gigantes não acontecem no vácuo. Acontecem num mundo em que os bancos centrais passaram quinze anos enchendo o sistema de dinheiro fabricado do nada, e esse dinheiro, como toda água represada, precisa escorrer para algum lugar. Escorre para private equity, escorre para fusões, escorre para ofertas hostis sobre empresas que ninguém disputava quando juros eram juros de verdade. O preço pago pelo Kakaku não é o valor do Kakaku; é o eco da impressora de Tóquio, de Frankfurt e de Washington tocando ao fundo.
Quem segue o dinheiro percebe a graça do arranjo. Bain e LY não estão tirando isso do bolso pessoal dos sócios. Estão tirando de fundos de pensão, de poupadores institucionais, de cotistas que confiaram seu suor a gestores que precisam mostrar performance trimestral. A EQT joga o mesmo jogo do outro lado do tabuleiro. No fim, o varejista comum japonês, aquele senhor que usa o Kakaku.com para comparar o preço de um aspirador de pó, vai descobrir que sua plataforma trocou de dono, e que o novo dono vai precisar extrair retorno suficiente para justificar o preço inflado que pagou. Adivinhe quem paga a conta da extração.
Há uma lição antiga aqui que poucos querem ouvir. Quando duas pessoas brigam num leilão, raramente é porque o objeto vale tanto; é porque o ego, a tese ou o mandato de investimento não permite recuar. Em finanças, isso tem nome técnico chiquérrimo, mas o velho ditado já dizia: na disputa de tolos, vence o que tem mais paciência para perder dinheiro. Os japoneses inventaram a palavra para isso, e os escandinavos vão aprender o significado a duras penas.
A peça realmente interessante está fora do palco. A LY Corporation é resultado da fusão Line-Yahoo Japan, empresa que controla parte considerável da atenção digital do arquipélago. Adicionar Kakaku.com ao caldeirão significa concentrar ainda mais dados de consumo, de busca e de comparação numa única estrutura. Os reguladores antitruste japoneses estão olhando? Estão. Vão fazer alguma coisa? Provavelmente não, porque o capitalismo de compadrio asiático tem aquela tradição secular de cochilar quando convém aos campeões nacionais. E é aqui que o mercado supostamente livre vira outra coisa, vira arranjo, vira pacto entre quem tem o dinheiro e quem tem o carimbo.
No fim das contas, a disputa pelo Kakaku é mais um sintoma de uma economia global em que o capital deixou de ser escasso e virou abundante a ponto de perder o senso de preço. Quando isso acontece, ativos sobem por motivos que nada têm a ver com sua produtividade real, e o ajuste sempre vem, atrasado e violento. Pode demorar, pode parecer que desta vez é diferente, mas a aritmética não negocia com gestor de fundo. Cedo ou tarde, o leilão acaba, as luzes acendem, e alguém precisa explicar ao cotista por que pagou caro num momento em que parecia tão razoável pagar caro.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.